Sobre a Salmodia

[Por: Clemente de Alexandria (150 – 215)]

“Deixai o órgão de flautas ou gaita para o pastor de cabras, a flauta para os homens que temem os deuses-demônios e se enfeitiçam usando-a na adoração dos seus ídolos. Tais instrumentos musicais têm que ser expulsos de nossas festas sem a suas asas, pois são mais adequados para os animais brutos e para aquela classe de homens que é menos capaz de raciocinar espiritualmente. O Espírito, para purificar a liturgia divina de qualquer tal celebração sem controles, canta no Salmo 150:

a) ‘Louvai-O com o som da trombeta’ –> porque, de fato, ao som da trombeta os mortos ressuscitarão;
b) ‘Louvai-O com a harpa’ –> porque, de fato, a língua é a harpa do Senhor;
c) ‘e com o alaúde-saltério. Louvai-O’ –> entendendo a boca como um alaúde-saltério movido pelo Espírito, tal como o alaúde-saltério é movido pelo plectro a palheta, de marfim ou de ouro;
d) ‘louvai-O com o tamborim e coral que responde em eco’ –> isto é, a Igreja esperando pela ressurreição do corpo na carne a pele, Igreja que é o coral, o corpo e eco de Cristo;
e) ‘louvai-O com instrumentos de cordas e com órgão,’ –> chamando nossos corpos um órgão e seus tendões cordas, porque deles o corpo deriva seu movimento coordenado e, quando tocado pelo Espírito, produz os maravilhosos, inigualáveis, inimitáveis e insuplantáveis tons humanos;
f) ‘louvai-O com címbalos sonoros; louvai-O com címbalos altissonantes’ –> címbalos sonoros significam a língua da boca a qual, com os movimentos dos lábios címbalos altisonantes, canta as palavras.
g) Então Ele convoca a toda a humanidade ‘Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor’, porque Ele reina sobre todo espírito que Ele tem feito. Na realidade, o homem é um instrumento de arco uma inigualável harpa para a paz, mas estes outros instrumentos, se alguém se focaliza demasiado neles, tornam-se instrumentos de conflito, para inflamar as paixões. Os Etruscos, por exemplo, usam a trombeta para guerra; os Arcadianos, a corneta; os Siquels, a flauta; os Cretenses, a lira; os Lacedonianos, o tubo de órgão ou gaita; os Trácios, o clarim; os Egípcios, o tambor; e os Árabes, o címbalo. Mas, quanto a nós, fazemos uso de somente um instrumento: somente a Palavra cantada de paz pela qual adoramos Deus, não mais com as anteriores harpa ou trombeta ou tambor ou flauta, as quais aqueles pagãos treinados para a guerra usam.”

Clemente de Alexandria – “The instructor, Fathers of the church”, p. 130

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“Ademais, Rei Davi, o Harpista de quem falamos acima, nos incitou à verdade e para longe dos ídolos. Tão distante estava Davi de cantar os louvores de demônios, que estes foram postos em fuga por ele, com a verdadeira música; e quando Saul estava possesso, Davi o curou meramente por tocar a harpa não é dito que Davi cantou!. Em contraste O Senhor como supremo artífice formou no homem um o mais lindo instrumento, que respira com vida, criado à Sua própria imagem. Seguramente Ele mesmo o Cristo é um instrumento de Deus, totalmente harmônico, melodioso e santo, a sabedoria acima deste mundo, a Palavra celestial” … “Aquele que brotou de Davi e todavia era antes dele, o Verbo de Deus, zombou e desprezou a lira e a cítara, aqueles instrumentos sem vida. Pelo poder do Espírito Santo, Ele dispôs em harmoniosa ordem este grande mundo e, sim, o pequeno mundo do homem também, corpo e alma juntos; e nestes instrumentos de muitas vozes do universo, Ele o Cristo faz música para Deus, e canta com o acompanhamento do instrumento humano, ‘Porque vós sois minha harpa e meu órgão de flautas e meu templo.’ isto é uma aplicação de 2Co 6.16?.”

Clemente de Alexandria – “Readings” p. 62