Sacramento da Ceia do Senhor

[Por: John Knox]

Aqui declara-se brevemente, de acordo com as sagradas escrituras, a opinião que nós, cristãos, temos acerca da Ceia do Senhor, entendida como o sacramento do corpo e do sangue do nosso Salvador Jesus Cristo.

Primeiro, confessamos que é um ato sagrado, ordenado por Deus, no qual o Senhor Jesus, por meio de coisas terrenas e visíveis, se apresenta a nós e nos eleva a coisas celestiais e invisíveis. E que, quando ele preparou seu banquete espiritual, testificou que ele mesmo era o pão da vida mediante o qual nossas almas são alimentadas para a vida eterna.

E, portanto, ao dispor o pão e o vinho para comer e beber, ele confirma e sela para nós essa promessa e comunhão (qual seja, de que seremos coparticipantes com ele em seu reino); e ele representa para nós, e faz claro aos nossos sentidos, os seus dons celestes; e também nos dá a si mesmo, para ser recebido pela fé, e não pela boca, nem mesmo por transfusão de substância, mas sim pelo poder do Espírito Santo para que nós, alimentados com sua carne e restaurados com seu sangue, possamos ser renovados tanto para a santidade como para a eternidade.

E também [confessamos] que aqui o Senhor Jesus nos reuniu em um corpo visível, a ponto de sermos membros uns dos outros e constituirmos juntos um corpo, cuja única Cabeça é Jesus Cristo; e, finalmente, que pelo mesmo sacramento o Senhor nos chama à memória de sua morte e [de sua] paixão, para quebrantar nossos corações em adoração ao seu santíssimo nome.

Além disso, reconhecemos que se deve participar desse sacramento com reverência, sabendo que ele exibe e testifica da maravilhosa associação e comunhão do Senhor Jesus e dos que o recebem; e, também, que se inclui nesse sacramento [uma promessa de] que ele preservará sua igreja, visto que somos ordenados a trazer à memória a morte do Senhor até que ele venha (1 Cor. 11:26).

Também cremos que isso é uma confissão, mediante a qual mostramos o tipo de doutrina em que acreditamos e a qual tipo de congregação nos juntamos e, assim, que há um vínculo de amor mútuo entre nós. E, finalmente, cremos que todos os participantes dessa santa Ceia devem trazer consigo sua conversão ao Senhor, por arrependimento sincero em fé; e que nesse sacramento recebem os selos e a confirmação de sua fé; e que de forma alguma devem imaginar que seus pecados são perdoados por causa dessas obras.

E, no que diz respeito a estas palavras, “Hoc est corpus meum”, “Este é o meu corpo” (1 Cor. 11:24; Mt. 26:26; Mc. 14:22; Lc. 22:19), das quais os papistas dependem tanto, alegando que é necessário que creiamos que o pão e o vinho são transubstanciados para o corpo e o sangue de Cristo: nós declaramos que este não é um artigo de fé que pode salvar, nem que deve ser alvo de nossa crença sob perigo de danação eterna. [Isso é óbvio,] visto que, mesmo que creiamos que o seu corpo natural, carne e sangue, está naturalmente no pão e no vinho, isso não nos salva [automaticamente], porque muitos acreditam nisso e ainda assim recebem [os elementos] para sua própria condenação [Cf. 1 Cor. 11]. Porque não é a sua presença no pão que nos pode salvar, mas sim a sua presença nos nossos corações, através da fé no seu sangue que nos lava dos nossos pecados e pacifica a ira do Pai em relação a nós. E, novamente, se não crermos em sua presença corporal no pão e no vinho, isso não nos condenará, mas [o que nos condena é sua] ausência dos nossos corações por causa da incredulidade.

[Objeção possível:] Agora, se [os romanistas] fossem apresentar objeção aqui, concordando que a ausência [corporal] do pão não nos condena, mas que mesmo assim devemos acreditar nela porque é a palavra de Deus que diz “Este é o meu corpo” (1 Cor. 11:24), e que aquele que nisso não crê é no mínimo um mentiroso e faz de Deus um mentiroso, e que, portanto, essa incredulidade leva à condenação, [Resposta:] responderemos que cremos na palavra de Deus, e que confessamos ser ela verdadeira, mas não na interpretação grosseira dos papistas. Porque no sacramento nós recebemos Jesus Cristo espiritualmente, tal como os patriarcas faziam no Antigo Testamento, conforme o que diz S. Paulo (1 Cor. 10:3-4). E, também, [responderemos] que se as pessoas raciocinassem um pouco sobre como que Cristo, ordenando seu sacramento do corpo e do sangue, falou essas palavras de forma sacramental, sem dúvida nunca as interpretariam de maneira tão grosseira e estúpida, contrariando todo o conjunto das escrituras, e mesmo a exposição de S. Agostinho, S. Jerônimo, Fulgêncio, Vigílio, Orígenes e tantos outros servos de Deus.

John Knox – The works of John Knox – 1550, Vol. 3 – p. 71

Tradução: Lucas Grassi Freire

Fonte: Monergismo.com