O Mal dos Males ou a Excessiva Pecaminosidade do Pecado

[Por: Jeremiah Burroughs]

“‘Pois isso preferes à tua miséria‘ (Jó 36.21b).

CAPÍTULO 1

É um verdadeiro mal escolher o pecado em vez da aflição.

Nessas palavras Eliú está lançando um falso desafio contra o santo Jó, com o qual de forma vergonhosa escandalizou esse homem de Deus, em relação ao qual o próprio Deus dá em sua carta um testemunho no sentido de que ele era homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1.1). E Eliú ainda afirma que Jó escolheu a iniquidade em vez da aflição; que ele via menos mal no pecado do que na aflição; que por sua aflição ele era perturbado, mas por seu pecado não era afligido; que o fardo da sua aflição pesava sobre ele como um talento de chumbo, mas o seu pecado era mais leve que uma pluma. Ou então, “você tem escolhido a iniquidade em vez da aflição, ao passo que Deus exige que você o glorifique em sua humilde submissão a Ele em ser paciente sob a Sua poderosa mão. Você tem se comportado de forma obstinada e contumaz, e tem se negado a dar a Deus a glória da Sua soberania, majestade, santidade, justiça e pureza; e você tem escolhido isso em vez de estar contente em repousar sob a aflição oriunda da mão de Deus”.

De qualquer modo, o desafio foi lançado; e foi um pesado desafio e também verdadeiro em princípio. De tal modo que, se ele for alegado contra qualquer alma, que ela escolhe a iniquidade em vez da aflição, é um grande e pesado desafio.

A verdade doutrinária que surge das palavras do texto é a seguinte: Que é um verdadeiro mal que qualquer alma escolha o menor pecado em vez de escolher a maior aflição. Melhor é estar sob a maior aflição do que sob a culpa ou o poder de algum pecado. É verdade que nem o pecado nem a aflição devem ser escolhidos. A aflição em si mesma é um mal, e o pecado é um mal, porém, o objeto da vontade é bom e a escolha é da vontade. Por isso, nenhum (dificilmente considerados em si mesmos) pode ser escolhido; mas, por causa de alguns males, o menor em comparação com o maior pode trazer uma noção do que é bom, e então pode ser escolhido em algumas ocasiões. A vontade não pode escolher coisa alguma mas, sob a noção de bem, seja real ou aparentemente; e, embora a aflição seja em si mesma um mal, ainda em consideração do pecado, pode trazer a noção de bem, e deve ser escolhida em vez do pecado. Agora essa é a obra que eu tenho de fazer, levar essa conclusão a você: que qualquer aflição deve ser escolhida em vez de qualquer pecado; que existe mais mal em qualquer pecado, no menor pecado, do que na maior aflição.

Meu principal objetivo é desafiar as consciências dos homens com o mal do seu pecado e mostrar-lhes como existe um grande mal no pecado. Todos os homens são amedrontados pelas aflições e perturbados por elas, mas onde está o homem ou a mulher que teme o pecado e foge dele como de uma serpente, e é perturbado pelo pecado mais do que por qualquer aflição? Que há mais vileza no pecado do que na aflição, em geral (eu suponho), é garantido por tudo. Ninguém pode negar isso; mas, porque eles não podem ver como é isso, eles não são convencidos por argumentos para trazer essa verdade às suas almas com poder. Mas eu espero, diante do que tenho feito com esse ponto, que eu possa tornar claro à consciência de todas as pessoas. Há mais mal no pecado do que em todos os problemas visíveis do mundo; mais mal no pecado do que em todas as misérias e tormentos do próprio inferno.

Suponha que Deus leve qualquer de vocês à beira daquele abismo sem fundo e o abra diante de você, e ali veja aquelas criaturas amaldiçoadas desfalecendo sob a ira do Deus infinito, e ali você possa ouvir terríveis e hediondos choros e gritos estridentes daqueles que estão sob tal espanto de alma e afundando em tormentos sob a ira do Todo-Poderoso. No entanto, eu digo, existe mais mal em um pensamento pecaminoso do que em todas essas chamas eternas, e eu devo me esforçar para deixar claro e provar à consciência de todo homem, que escolher o pecado em vez da aflição não apenas é uma escolha doentia, mas também (se isso é uma competição) escolher o pecado em vez de todas as torturas e tormentos do inferno. Porém, muitos de vocês dão ao pecado termos muito fáceis. Ainda, a verdade é que, se se deve estabelecer uma competição suportaríamos todos os tormentos do inferno por toda a eternidade em vez de cometer um único pecado, eu digo que, se nossos espíritos estivessem como deveriam estar, preferimos estar dispostos a suportar todos esses tormentos a cometer o menor pecado.

E, irmãos, não pensem que isso é um alto esforço, pois eu que falo em nome de Deus não o faço por meio de hipérbole, para despertar expressões mais altas do que essas coisas são na realidade. Não, eu não venho com esse objetivo, e tomaria o nome de Deus em vão se assim fizesse. Portanto, não me atrevo a sustentar as coisas além do que elas realmente são. Por conseguinte, saibam, tudo o que eu vos disse a este respeito não é apenas em palavras ou expressões, mas falo como em nome de Deus, como se eu estivesse falando à minha própria consciência, tendo que lidar com Deus e vocês nessa grande obra, e nesse lugar entregar essa verdade, que há mais mal no menor pecado do que em todas as misérias que uma criatura é capaz de suportar, aqui ou no inferno. Espero que ao fazer isso, você então acredite que ainda não tem compreendido a pecaminosidade do pecado, para que o peso do pecado não seja colocado sobre você. Agora, para que possa convencê-lo plenamente, há mais mal no menor pecado do que em qualquer aflição.”(…)
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Jeremiah Burroughs – The Evil of Evils, or the Exceeding Sinfulness of Sin, Grand Rapids, MI: Soli Deo Gloria, 2008. pp. 1-4u
Tradução: Alan Rennê
Fonte: Cristão Reformado,