O Modo Certo de Santificar o Dia do Senhor

[Por: Lewis Bayly]

“…Pois bem, a santificação do Sabbath consiste em dois procedimentos: primeiro, em descansar de toda atividade servil e comum relacionada com a nossa vida natural; segundo, em consagrar esse descanso totalmente ao serviço de Deus e ao uso dos santos meios pertinentes à nossa vida espiritual.

Quanto ao primeiro

1. Devemos abster-nos dos trabalhos servis e comuns no dia do Senhor. Estes são, em geral, todos os trabalhos civis, do menor ao maior (Ex 31:12,13,15ss). Mais particularmente são:

(1) Todos os trabalhos pertencentes à nossa carreira ou profissão, ainda que seja o de colher e seja tempo de colheita (Ex 34:21).

(2) O transporte de cargas da própria casa ou de fora (Ne 13:15; Jr 17:21,22,27), ou cavalgar em busca de lucro ou de prazer. Deus ordenou que os animais descansem no Sabbath, ou, se houvesse desobediência, todas as ocasiões de trabalho ou passeio com eles seriam cortadas. Deus lhes dá um dia de descanso (Dt 5:14),e os gemidos dos animais cansados se erguerão no dia do juízo contra aqueles que os privam do seu descanso no dia do Senhor (Rm 8:22; Dt 25:4; 1Cor 9:9). Igualmente, todos os que passam grande parte do Sabbath se enfeitando, se pintando e afagando seu ego, como modernas Jezabéis, fazem a obra do diabo no dia de Deus.

(3) Ir a feiras ou mercados (Ne 13:15,16,19), pecado, que, na maior parte, Deus pune com peste, fogo e enchentes extraordinárias.

(4) Estudar livros de ciência, em vez de somente as Escrituras e livros de edificação espiritual e doutrinária, pois, no dia do Senhor, o nosso estudo deve ser tal que nos sintamos arrebatados em espírito (Ap 1:10). Numa palavra, nesse dia você não deve fazer nada que se relacione à sua vocação natural ou à sua profissão, para que o Senhor, por Sua vocação, realize Sua obra em você. Nenhum produto de trabalho comum feito nesse dia será abençoado pelo Senhor, pois acontecerá o que aconteceu com o ouro de Acã que, sendo contrário ao mandamento do Senhor, trouxe a maldição do fogo de Deus sobre tudo o mais que ele tinha obtido licitamente. E, se Cristo surrou os ladrões que compravam e vendiam em Seu templo, que constituía algo cerimonial que logo seria ab-rogado, devemos considerar que Ele jamais deixará que saiam impunes aqueles que, contrariando o Seu mandamento, compram e vendem no Sabbath, que constitui sua lei perpétua! Os que agiram dessa forma no templo Jesus chamou de ladrões sacrílegos. E, aqueles que roubam de Deus a maior parte do dia do Senhor para consumi-lo em suas cobiças, agem como que roubando o cálice da Ceia da mesa do Senhor. Um dia esses tais verão que os juízos de Deus são mais pesados que as opiniões de homens.

(5) Todas as recreações e práticas desportivas lícitas nos outros dias, pois, se os trabalhos lícitos são proibidos nesse dia, muito mais os desportos lícitos, os quais usurpam os afetos que deveriam ser dedicados à contemplação das realidades celestiais (Is 59:13,14). Note-se que essa usurpação é maior do que a que é feita pelos nossos trabalhos e labores físicos. E não é possível que o homem que se deleita no Senhor (Sl 37:4) tenha mais prazer nalguma recreação do que santificar o dia do Senhor. Pois, poderia haver maior gozo para uma pessoa condenada do que vir à casa do seu príncipe para ter o seu perdão selado? E o que sofre doença mortal vir à casa de um médico que pode curá-lo? Ou um filho pródigo, que se alimentava com as bolotas dos porcos, ser admirado à mesa do seu pai para comer o pão da vida? Ou aquele que, por causa do seu pecado, teme os prenúncios da morte, vir ouvir e receber de Deus a certeza da vida eterna? Se você quiser permitir a si próprio ou a seus servos alguma recreação, então que seja nos seis dias que lhe pertencem, não no dia do Senhor, que não pertence nem a você nem a eles. Portanto, nenhuma recreação física deve ser praticada no dia do Senhor, exceto a que ajuda a alma a fazer mais alegremente o serviço a Deus.

(6) Comer demais e exagerar no vinho ou noutra bebida forte (Ef 5:18,19), o que pode nos deixar sonolentos e ineptos para servir a Deus com nossos corações e nossas mentes (Rm 12:11; Dt 28:47).

(7) Toda conversa ou prosa que impeça a santificação do Sabbath. Conversa desse tipo impede a santificação do Sabbath mais do que o trabalho, visto que o trabalho uma pessoa pode fazer sozinha, mas para conversar precisa de mais alguém. Aquele que observa o Sabbath só descansando do seu trabalho comum, observa-o como qualquer animal. Mas a guarda desse dia como descanso e ordenada aos cristãos igualmente como ajuda à santificação. Assim também o trabalho é proibido por impedir o culto exterior e interior de Deus.

Agora, pois, se as recreações que são lícitas nos outros dias da semana, no Sabbath não são permitidas, muito mais as que são totalmente ilícitas em qualquer tempo. Quem pode ver, sem chorar, os cristãos “guardarem” o dia do Senhor como se estivessem celebrando uma festa em homenagem a Baco, e não em honra do Senhor Jesus, o salvador e redentor do mundo? Pois, tendo passado apenas uma hora em serviço que se pode ver, passam o resto do dia do Senhor, ora sentados a comer e beber, ora se levantando para jogar e dançar; primeiro formando um lastro em seus ventres com comida e bebida, e depois alimentando sua luxúria com jogo e dança (1 Cor 10:7; Ex 32:6,18,19). Contra essas profanações todos os santos teólogos, em seus tempos, lançaram duras invectivas, tanto assim que Agostinho afirma que “melhor seria arar o campo do que dançar no dia do Senhor“.

Agora, o que digo o faço em nome do todo-poderoso Deus, que descansou assim que acabou de criar o céu e a terra, e do Seu filho eterno, Jesus, o Redentor de Sua Igreja, que sem demora virá, no terrível dia de definição das sentenças, para julgar todos os homens conforme sua obediência ou desobediência a Seus mandamentos (At 17:31; Rm 2:12; 2 Ts.2:8): insisto em que você leia estas palavras como se já estivesse na presença real e concreta de Cristo e de todos os Seus santos anjos naquele dia. Digo isso para que você pondere e considere melhor se Deus vai abençoar e permitir danças no dia do Senhor, representações teatrais, bailes de máscaras, jogo de cartas e de dados, roletas, jogo de xadrez, boliche, tiro ao alvo, caça, pesca, rodadas de bebidas, embriaguez e outras estultícies semelhantes como as “folias de Robin-Hood”, as danças mouriscas e os jogos de maio. E, visto que não devemos praticar nenhum ato nesse dia que não seja algo pelo que, ou bendizemos Deus, ou procuramos receber bênção de Deus, como é que você se atreve a fazer coisas nesse abençoado dia sobre as quais você não se atreveria a rogar a Deus que as abençoe para seu proveito? Ouça isso e trama, ó jovem profano de uma época profana!

Ó coração gélido e vazio de percepção da graça de Deus! Todos os dias em cada período de seis, todas as horas em cada dia, todos os minutos em cada hora, você provou a doce misericórdia do seu Deus em Cristo, sem a qual você teria perecido a cada momento. No entanto, você não acha em seu coração corrupto e irreligioso nada que o incentiva a passar o tempo no serviço do seu Mestre e Senhor nesse único dia da semana, que Ele reservou para Seu culto e louvor! Que os homens, em defesa da sua profanidade, objetem como quiserem e respondam com o que o diabo ponha em suas bocas. Contudo, eu poderia fazê-los lembrar que, visto que, segundo antiga tradição da Igreja, a Segunda Vinda do Senhor vai ocorrer no dia do Senhor 1, que tipo de alegria teriam em ser surpreendidos nessas práticas de recreação carnal, para seu gáudio, quando o seu Senhor deveria encontrá-los em exercícios espirituais, servindo-O. O mais miserável profano preferiria, então, ser encontrado de joelhos, em oração, na igreja, a estar pulando que nem cabrito numa dança. Se, apesar disso, esta advertência não o comover, ainda assim eu gostaria que os nossos impuros e ousados cavalheiros se lembrassem de que, quando se divertem no dia do Senhor contra o mandamento do Senhor, não fazem mais do que dançar em volta de um poço, na beira, e não sabem qual deles vai cair primeiro. E, uma vez caídos nele, sem arrependimento, não haverá grandeza que possa eximi-los da vingança deste grande Deus, cujo mandamento eles presunçosamente transgridem contra o seu próprio conhecimento e contra a sua própria consciência.

Então, se o mandamento de Deus não dissuade você, e a advertência da Palavra de Deus não o dobra, só digo o que o apóstolo João disse antes de mim: ‘Quem está sujo, suje-se ainda‘ ².”…

¹ Lactan. 1.7, c. I
² Esta foi a última e mais pesada maldição que o apóstolo João lançou sobre a Babilônia espiritual (Apoc. 22:11)
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Lewis Bayly – A Prática da Piedade. São Paulo: Editora PES, 2010. p. 263-267