Sobre a salmodia exclusiva

[Por: Henry Cooke]

“…Tenho, muito alegremente, cumprido a solicitação de escrever um prefácio de uma reedição, na Irlanda, de um tratado americano acerca da Salmodia Cristã no culto público – em parte por causa do talento demonstrado na obra – e em parte, por um detalhe de minha própria experiência, por poder acrescentar um humilde testemunho acerca de um grande princípio.

Minha primeira recordação de uma salmodia pública e familiar é aquele uso da versão inglesa dos Salmos Bíblicos, autorizado pela Igreja Reformada da Escócia. Em nossas Igrejas Presbiterianas, até onde meu conhecimento se estende, outras são desconhecidas.Quando entrei para o ministério, em 1807, a coleção escocesa de Paráfrases e Hinos veio a ser de uso parcial; e influenciado pelo sentimento em seu favor, eu fui gradualmente levado a adotá-los. O principio do seu uso, uma vez adotado, abriu caminho para os outros de uma forma ilimitada; pois se estas paráfrases e hinos são bons para a adoração pública, segue-se que outros podem ser bons também, ou melhores. Deste modo, numa certa época do meu ministério, eu dediquei tanto o tempo quanto o esforço para selecionar, por todas as fontes acessíveis, um volume adicional, com um ensaio, incorporando uma defesa do seu uso privado e público. Eu preciso apenas acrescentar que eu acreditava que meus argumentos – em parte originais e em parte derivados – eram incontestáveis.

E agora detalharei, de maneira mais breve possível, as circunstâncias que primeiramente me levaram a duvidar, e, finalmente, rejeitar minhas conclusões anteriores.

Depois de ter sido nomeado para uma curta viagem missionária, eu saí de casa com boa saúde, mas fiquei repentinamente doente, e, durante um mês, fiquei impedido de voltar; e foi quando ‘noites cansativas foram apontadas para mim e sacudidas de lá e para cá até o raiar do dia’ que, na frequente solidão, fui jogado, quase que inteiramente em minhas remotas lembranças. Mas com aquela faculdade que Deus me dotou, e os salmos executados na época da escola, e as paráfrases e hinos de anos mais maduros, geraram temas de prontas meditações. E foi então, que, inesperadamente, contudo irresistivelmente, foi estampado sobre mim, pela experiência e pelo sentimento, que os mais celebrados hinos de homens não inspirados eram, como os amigos de Jó, “consoladores miseráveis” quando comparados com a experiência de Cristo, naqueles dias de humilhação cujo Livro do Salmos é a verdadeira figura profética.

Agora, enquanto eu não estabeleço minhas próprias convicções como uma regra ou medida para a consciência dos outros, não posso deixar de ter pena daqueles que podem encontrar, como eles afirmam, tão pouco de Cristo na inspirada salmodia da Bíblia, e que eles precisam buscar e empregar uma salmodia não inspirada para expô-lo mais completamente. Nosso Senhor encontrou a Si mesmo nos Salmos (Lucas 24:44,45) – e assim abriu o entendimento dos seus discípulos para que eles pudessem entender as Escrituras. Certamente o que era a mais clara luz para os olhos deles, deve ser para os nossos. E, verdadeiramente, eu acredito, há uma visão de Cristo – e não é a menos importante para o crente atribulado e cansado – que pode ser descoberta no Livro dos Salmos. Eu me refiro a sua vida interior. Nenhuma testemunha ocular do homem externo – ainda que um inspirado evangelista – pôde penetrar o coração. Mas o Espírito que “penetra as profundezas de Deus”, tem, nos salmos, deixado aberto os mais íntimos pensamentos, tristezas e conflitos de nosso Senhor. Os Evangelistas fiel e inteligentemente retrataram o Homem impecável; apenas os salmos deixaram aberto o coração do “Homens de dores”. As mais piedosas produções de homens não inspirados são riachos rasos, enquanto os Salmos são um oceano insondável e sem limites.

Concluindo, peço para gravar duas coisas que confirmaram minha decisão em favor da salmodia exclusiva na adoração pública. Primeiro, os Salmos Bíblicos foram inspirados pelo Espírito Santo (2Tm 3:161Pe 1:21), e não há erros em usá-los. Segundo, ainda que em uma poesia sagrada e não inspirada eu descobri muitas belezas e outras excelências, eu nunca descobri nenhuma compilação, da qual, eu pude afirmar que estava livre de erros doutrinários sérios. Eu percebo que este, especialmente, é o caso com não poucas Paráfrases e Hinos autorizados pela Igreja da Escócia. Se um erro doutrinário é, sempre, perigoso, quanto mais quando é estereotipado nas devoções do santuário! “…
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Henry Cooke – Preface to A True Psalmody, p.7-11
Tradução – Joelson Galvão