A compaixão indiscriminada de Cristo

[Por: João Calvino]

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste? [Lucas 13:34]

“…Isto é expressivo de indignação em vez de compaixão. A própria cidade, de fato, sobre a quem ele depois lamentaria (Lc 19:41é ainda objeto de compaixão; mas em direção aos escribas, que foram os autores de sua destruição, ele usa dureza e severidade, como eles merecem. E ainda assim ele não poupou o resto, que eram todos culpados de aprovar e co-participar do mesmo crime,(…) Se em Jerusalém a graça de Deus fora meramente rejeitada, ali teria sido uma ingratidão inexcusável; mas desde que Deus tentou trazer os judeus para si por compassivos e gentis métodos, e não recebeu nada por tal gentileza, a criminalidade de tal altivo desdém foi muito mais agravada. Foi semelhantemente acrescentada obstinação insuperável; porque não apenas uma vez e novamente Deus desejou juntá-los, mas por constantes ininterruptos avanços, ele lhes enviou profetas, um após outro, quase todos os quais foram rejeitados pelo grande corpo da população.(…)

Percebemos agora a razão por que Cristo, falando na pessoa de Deus, se compara a uma galinha. Isto é para infligir mais profunda desgraça a esta impia nação, que tratou com desdém convites tão gentis, e procedimentos da mais maternal compaixão. É uma impressionante e ímpar instância de amor, que ele não desdenha a se inclinar a tais lisonjas, pelas quais ele poderia domar rebeldes em sujeição (…) Por isto ele quer dizer que, se a palavra de Deus é exibida em nós, ele abre seu coração para nós com maternal atenção, e, não satisfeito com isto, condescende à humilde afeição da galinha cuidando de seus pintinhos. Portanto, segue que nossa obstinação é verdadeiramente monstruosa, se não o permitirmos que nos reúna. E de fato, se considerarmos, por um lado, a terrível majestade de Deus, e, por outro lado, nossa média e baixa condição, não podemos nada além de estar envergonhados e assombrados por tal impressionante bondade. Pois que objeto pode Deus ter em vista ao humilhar a si mesmo em nossa conta? Quando ele se compara a uma mulher, ele descende muito bem abaixo de sua glória; quanto tão mais quando ele toma a forma de uma galinha, e se digna a nos tratar como seus pintinhos?.”…
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João Calvino – Commentaries On The Harmony Of The Gospels Vol. 3
Fonte – Calvin and Calvinism
Tradução – Credulo

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