A Excelência do sacerdócio de Cristo

[Por: João Calvino]

Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo.” [Hebreus 2:17]

Na natureza humana de Cristo há duas coisas a serem consideradas, a saber: a essência da carne e os afetos ou sentimentos. O apóstolo, pois, ensina que ele se vestiu não só da própria carne humana, mas também de todas as emoções afetivas que são inerentes ao homem. Ele mostra também os frutos que nos advêm dai e qual o legitimo ensino da fé, quando sentimos em nós próprios a razão por que o Filho de Deus tomou sobre si nossas enfermidades. Sem tais frutos, todo nosso conhecimento seria frio e inanimado. Ele prossegue ensinando que Cristo se fez sujeito às nossas paixões humanas “para que pudesse ser misericordioso e fiel sumo sacerdote“.²²
Tomo essas palavras no seguinte sentido: “Para que pudes-se ser misericordioso e, portanto, fiel.” Para um sacerdote, cuja função era apaziguar a ira de Deus, socorrer os desventurados, restaurar os caldos, libertar os oprimidos, seu primordial e extremo requisito era demonstrar misericórdia e criar em nós tal senso de comunhão. Pois é muito raro que aqueles que vivem sempre afortunadamente simpatizem com os sofrimentos alheios. (…)

O Filho de Deus não tinha necessidade de passar por alguma experiência a fim de conhecer pessoalmente a emoção da misericórdia. Entretanto, Ele jamais nos teria persuadido de sua bondade e prontidão em socorrer-nos, não fosse ele provado por nossos próprios infortúnios. E tudo isso ele nos concedeu como favor. Portanto, quando nos sobrevém toda sorte de males, que isso nos sirva de imediata consolação, a saber: que nada nos sobrevém sem que o Filho de Deus já o tenha experimentado em sua própria pessoa, para que pudesse ser-nos solidário. Nem duvidemos de que ele está conosco como se ele mesmo sofresse a nossa própria dor.²
Fiel” significa verdadeiro e justo. É o oposto de impostor ou alguém que não cumpre seu dever. A experiência de nosso infortúnio faz de Cristo Alguém tão pleno de compaixão, que o move a implorar o auxilio divino em nosso favor. Que mais podemos desejar? Para fazer expiação por nossos pecados, ele se vestiu de nossa natureza, para que pudéssemos ter em nossa própria carne o preço de nossa reconciliação. Em uma palavra, para que ele pudesse levar-nos consigo para o interior do santo dos santos de Deus em virtude de nossa comum natureza. Pela frase, “as coisas pertinentes a Deus” (τά πρός τόν Θεόν), o autor quer dizer as coisas cujo propósito é reconciliar os homens com Deus. Visto que a liberdade que emana da fé é a primeira via de acesso a Deus, carecemos de um Mediador que remova todas as incertezas.”…

Notas
22. Em concordância com minha concepção pessoal, temos aqui um exemplo de arranjo semelhante ao que repetidas vezes deparamos nos profetas, e que ocorre no versículo 9; isto deve ser visto como uma parte deste versículo e do seguinte posto em versos:
Para que se compadecesse,
E fosse fiel sumo sacerdote nas coisas de Deus,
Para fazer expiação pelos pecados do povo;
Pois, como ele sofreu, sendo ele mesmo tentado,
Pode socorrer os que são tentados.
A primeira e última linhas se correspondem entre si, e a segunda com a terceira. Ele é compassivo, porque pode solidarizar-se com os que são tentados, tendo sido, ele mesmo, tentado; e é um verdadeiro e fiel sumo sacerdote, porque realmente expiou os pecados do povo; e, para que fosse tudo isso, ele se tornou como seus irmãos, assumindo sua natureza.

24. Este parágrafo, que começa no versículo 5, tem início com o que é pertinente ao ofício régio – domínio e o que o acompanha: glória e honra, e para fazer de seu povo reis, bem como sacerdotes, para Deus. O domínio e a glória prometidos aos fiéis desde o princípio se percebem mesmo na primeira promessa feita ao homem caído, e desenvolvido mais plenamente depois, foi que em si mesmos não tinham poder. Daí tornou-se necessário que o Filho de Deus se tornasse o filho do homem, para que pudesse obter para seu povo o domínio e a glória. Este parece ser o ponto em pauta, que nos é apresentado nesta passagem. Os filhos de Deus, antes que Cristo viesse ao mundo, eram como que herdeiros em sua menoridade, ainda que fossem donos de tudo. Ele veio, assumiu nossa carne e efetuou tudo quanto era necessário para que tomassem plena posse dos privilégios que lhes foram prometidos (cf. Gl 4:1-6).
___________________________________________________________________
João Calvino – Comentário de Hebreus – Editora Fiel, p.74-76
Comentários de Calvino, gratuitos para leitura – Biblioteca João Calvino