A justiça dos cristãos é de duas espécies

[Por: Martinho Lutero]

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
[Filipenses 2:5-6]

“…A primeira espécie provém de outra pessoa e é concedida de fora. É a justiça mediante a qual Cristo é justo e justifica pela fé, como diz 1 Coríntios 1:30. “…o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”. Ele próprio afirma, em João 11:25: “Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, não morrerá eternamente.” E novamente, João 14:6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” Esta justiça, portanto, é concedida aos homens no batismo, e, em toda época de verdadeira penitência, resulta que o ser humano pode gloriar se, com toda confiança, gloriar-se em Cristo e dizer.: É meu tudo o que e de Cristo: sua vitória seus feitos, o que disse e sofreu, sua morte – como se eu próprio tivesse vencido, feito, dito, sofrido tais coisas e tivesse sido morto. Pertence ao noivo tudo o que a noiva possui, e à noiva pertence tudo o que o noivo possui (pois todas as coisas lhes são comuns visto serem em comum, uma vez que são uma só carne). Assim também Cristo e a igreja constituem um só espírito. Foi assim que o bendito Deus e Pai das misericórdias, conforme São Pedro nos concedeu coisas excelsas e preciosas em Cristo. Da mesma forma, na Segunda Epístola aos Coríntios: “Bendito seja o Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo pai das misericórdias e Deus de toda consolação” (2 Coríntios 1:3) “que tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.” (Efésios 1:3)

Esta bênção indizível foi prometida outrora a Abraão em Gênesis 12:3: “Na tua semente (isto é, em Cristo) serão abençoadas todas as tribos da terra.” Em Isaías 9:6: “Um menino nos nasceu, um filho se nos deu.” “A nós” diz ele, porque é a nós que pertence todo ele, com todos os seus bens, se nele cremos, como diz aos Romanos no capítulo 8:32: “Não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou; porventura, não nos dará com ele todas as coisas?” São nossas, portanto, todas as coisas que Cristo tem, concedidas que foram gratuitamente a nós homens indignos, por pura misericórdia, quando, na verdade, teríamos merecido ira e condenação, bem como o inferno, Por essa razão também o próprio Cristo, que afirmou ter vindo para cumprir essa vontade santíssima do Pai, tornou-se obediente a ele, e fez em nosso benefício e quis que fosse nosso tudo o que fez, pois declarava: “Eu estou no meio de vocês como alguém que serve” (Lucas 22:27), e novamente: “Este é meu corpo, que é dado por vós” (Lucas 22:19); e Isaías diz no capítulo 43:24: “Fizeste-me servir em teus pecados, e me deste trabalho em tuas iniquidades.

Pela fé em Cristo, portanto, a justiça de Cristo se torna nossa justiça, e, com ela, é nosso tudo que é de Cristo, sim, ele próprio torna-se nosso, Por essa razão, o apóstolo a chama “justiça de Deus”, na Epístola aos Romanos 1:17: “A justiça de Deus é revelada no evangelho, como está escrito: o justo vive da fé!” E mais: Refere-se à fé como sendo tal Justiça. Finalmente semelhante fé também é chamada de justiça de Deus, no capítulo terceiro da mesma carta: “Concluímos que o homem é justificado pela fé.” (Romanos 3:28). Esta é a justiça infinita e que absorve todos os pecados num instante, pois é impossível que haja pecado em Cristo; antes, quem crê em Cristo, está apegado a ele, e é uma coisa só com Cristo, compartilhando com ele a mesma justiça. Por isso é impossível que nele continue havendo pecado. E essa justiça é a primeira, é o fundamento, causa, origem de toda justiça própria ou de conduta. Porque de fato a mesma é concedida em lugar da justiça original, perdida em Adão, e realiza aquilo, sim, muito mais do que aquela justiça original teria conseguido realizar.

Assim se compreende aquilo no Salmo 31:1: “Em ti, Senhor, me refugio; não seja eu jamais envergonhado: livra‑me por tua justiça”; ele não diz “por minha”, mas “por tua”, isto é, pela justiça de Cristo, meu Deus, que foi feita nossa pela fé, pela graça, pela misericórdia de Deus. E isso é chamado, em muitos lugares no saltério, de obra do Senhor, confissão, força de Deus, misericórdia, verdade, justiça. Tudo isso são designações para a fé em Cristo, sim, para a justiça que está em Cristo. Por essa razão o apóstolo ousa dizer em Gálatas 2:20: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”, e em Efésios 3:17: “Que ele vos conceda que Cristo habite pela fé em vossos corações.

Essa justiça alheia, portanto, infundida em nós sem atos nossos, somente pela graça, ou seja, quando o Pai nos leva interiormente a Cristo, essa justiça alheia é oposta ao pecado original, o qual, de forma semelhante, contraímos de fora por nascença e através de nossa concepção, sem atos nossos. E assim Cristo expulsa o velho Adão dia a dia, mais e mais, e nessa medida crescem aquela fé e conhecimento de Cristo; pois ela não é infundida toda de uma vez, mas começa e progride e é levada finalmente à perfeição com a morte.

A segunda justiça é nossa e própria; não porque nós a operamos sozinhos, mas porque cooperamos com aquela primeira e alheia. Esta é agora aquela boa vivência de boas obras: em primeiro lugar na mortificação da carne e na crucificação da concupiscência em si mesmo, conforme Gálatas 5:24: “Mas os que são de Cristo, crucificaram sua carne, com as paixões e concupiscências.” Em segundo lugar também no amor ao próximo; em terceiro, também na humildade e no temor a Deus, do que está repleto o apóstolo e toda a Escritura. Mas ele resume tudo em Tito 2:12 dizendo: “Sobriamente” (isto é, em relação a si mesmo, pela crucificação da carne), “justamente” (ou seja, em relação ao próximo) “e piedosamente” (em relação a Deus) “vivamos neste século”.

Essa segunda justiça é obra da justiça anterior, fruto e conseqüência da mesma, conforme GáIatas 5:22: “Mas o fruto do Espírito (isto é, do homem espiritual, que ele se torna através da fé em Cristo) é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade”, etc. Pois o homem espiritual é chamado de “espírito”, nessa passagem, porque é evidente que aqueles frutos são obras dos homens. E João 3:6: “0 que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito.” Essa justiça leva à perfeição a primeira, porque sempre atua no sentido de arruinar o velho Adão e destruir o corpo do pecado: por isso ela se odeia a si mesma e ama o próximo, não procura o que é seu, mas o que é do outro, e nisto consiste toda a sua atuação. Pois ao odiar a si mesma e não procurar o que é seu, ela efetua em si a crucificação da carne; porém, ao procurar o que é do outro, ela opera a caridade; e, assim, com ambas as coisas ela faz a vontade de Deus, vivendo “sobriamente” em relação a si mesma, “justamente” em relação ao próximo, e “piedosamente” em relação a Deus.

E nisso ela segue o exemplo de Cristo e se identifica com a sua imagem. Pois isto mesmo também Cristo exige: Assim como ele próprio tudo fez em nosso favor, não procurando o que é seu, mas apenas o que é nosso, também nisso obedientíssimo a Deus Pai, assim ele quer que também nós mostremos este exemplo frente aos nossos semelhantes.

Essa justiça é contraposta ao nosso próprio pecado real, conforme Romanos 6:19: “Assim como ofereceram seus membros para a escravidão da impureza, e da maldade para a maldade, assim ofereçam agora seus membros para servirem a justiça para a santificação.” (Romanos 6.19). Portanto se levanta pela primeira justiça a voz do noivo que diz à alma: “Eu sou seu”, e pela segunda, a voz da noiva, que diz: “Eu sou sua”; está feito então o matrimônio firme, perfeito e consumado, como consta no Cântico dos Cânticos: Meu amado é para mim, e eu para ele, o que quer dizer, “meu amado é meu, e eu sou dele”. (Cantares 2:16). Então a alma não procura mais ser justa perante si mesma, mas tem como sua justiça a Cristo; daí ela procura apenas o bem dos outros. Por isso o senhor da sinagoga ameaça através do profeta tirar dela a voz da alegria, a voz do no noivo e a voz da esposa. (Jeremias 7:34)”…
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Martinho Lutero – Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 65-73.
Fonte – e-cristianismo