Cantar os Salmos é um dos quatro principais atos do culto da igreja

[Por: João Calvino]

A piedade e o saltério

Calvino vê os Salmos como o manual canônico da piedade. No prefácio de seu comentário, em cinco volumes, sobre os Salmos — sua maior exposição de qualquer Livro da Bíblia —, Calvino escreve: “Não há outro livro em que somos mais perfeitamente ensinados sobre a maneira de orar a Deus, ou em que somos mais poderosamente estimulados à realização deste exercício da piedade.“₉₃(93) A preocupação de Calvino com o Saltério foi motivada por sua convicção de que os Salmos ensinam e inspiram a genuína piedade, das seguintes maneiras:

  • Como a revelação de Deus, os Salmos nos ensinam sobre Deus. Por serem teológicos e igualmente doxológicos, eles são nosso credo cantado. ⁹⁴
  • Ensinam claramente nossa necessidade de Deus. Eles nos informam quem somos e por que necessitamos do auxílio de Deus. ⁹⁵
  • Oferecem o divino remédio para nossas necessidades. Apresentam Cristo em Sua pessoa, oficios, sofrimentos, morte, ressurreição e ascensão. Anunciam o caminho da salvação, proclamando a bem-aventurança da justificação pela fé somente e a necessidade de santificação pelo Espírito com a Palavra. ⁹⁶
  • Demonstram a espantosa bondade de Deus e nos convidam a meditar sobre Sua graça e mercê. Eles nos conduzem ao arrependimento e ao temor de Deus, a confiarmos em Sua Palavra e a esperarmos em Sua mercê.
  • Eles nos ensinam a buscar abrigo no Deus da salvação através da oração e nos mostram como levarmos nossos rogos a Deus. ⁹⁷ Eles nos mostram como orarmos confiantemente no meio da adversidade. ⁹⁸
  • Eles nos exibem a profunda comunhão que podemos desfrutar com nosso Deus que guarda a aliança. Mostram como a igreja viva é a noiva de Cristo, os filhos de Deus e o rebanho de Deus.
  • Proveem um veículo para o culto público. Muitos usam pronomes na primeira pessoa do plural (“nós”, “nosso”) para indicar este aspecto gregário; mas, mesmo aqueles com pronomes na primeira pessoa do singular, incluem todos os que amam o Senhor e são confiados a Ele. Eles nos levam a confiarmos e a louvarmos a Deus e amarmos nossos semelhantes. Promovem a confiança nas promessas de Deus, no zelo por Ele e Sua casa, e compaixão pelo sofrimento.
  • Eles cobrem a fileira completa da experiência espiritual, incluindo fé e descrença, alegria em Deus e pesar pelo pecado, a divina presença e a divina ausência. No dizer de Calvino, eles são “a divina anatomia de todas as partes da alma“. ⁹⁹ Vemos ainda, nas palavras dos salmistas, nossas enfermidades e doenças. Quando lemos acerca da experiência deles, somos levados, pela graça do Espírito, ao autoexame e à fé. Os salmos de Davi, especialmente, são como um espelho no qual somos levados a louvar a Deus e achar descanso em Seus soberanos propósitos. ¹⁰⁰

Calvino esteve imerso nos Salmos ao longo de vinte e cinco anos, como comentarista, pregador, estudioso bíblico e um líder litúrgico. ¹⁰¹ Desde o início, ele começou a trabalhar nas versões métricas dos Salmos para que fossem usados no culto público. Em 16 de janeiro de 1537, pouco depois de sua chegada em Genebra, Calvino solicitou de seu conselho que se introduzisse o canto dos Salmos na liturgia da igreja. Ele recrutou os talentos de outros homens, tais como Clement Marot, Louis Bourgeois e Theodoro Beza, para que produzissem o Saltério genebrino. Esse trabalho levaria vinte e cinco anos para ficar completo. A primeira coleção (1539) continha dezoito salmos, dos quais, Calvino participou na metrificação de seis. O resto foi feito pelo poeta francês Marot. Uma versão ampliada (1542), contendo trinta e cinco Salmos, foi a próxima, seguida por uma de quarenta e nove Salmos (1543). Calvino escreveu o prefácio de ambas, comentando a prática do canto congregacional. Após a morte de Marot, em 1544, Calvino incentivou Beza a metrificar o resto dos Salmos. Em 1564, dois anos antes de sua morte, Calvino expandiu sua alegria ao ver a primeira edição completa do Saltério de Genebra. ¹⁰²

O Saltério Genebrino está munido com uma notável coleção de 125 melodias, escritas especificamente para os Salmos, por eminentes músicos, dentre os quais, Louis Bourgeois é o mais conhecido. Os tons são melódicos, distintivos e reverentes. ¹⁰³ Eles expressam claramente as convicções de Calvino de que a piedade é melhor promovida quando se dá prioridade ao texto musicado, enquanto reconhece que os Salmos merecem sua música própria. Visto que a música deve ajudar na recepção da Palavra, Calvino afirma que ela deve ser “grave, dignificante, majestosa e modesta” — atitudes próprias para uma criatura pecadora na presença de Deus. ¹⁰⁴ Isto protege a soberania de Deus no culto e conduz à conformidade própria entre a disposição interior do crente e sua confissão externa.

Calvino cria que cantar os Salmos é um dos quatro principais atos do culto da igreja. Ele é uma extensão da oração. É também a mais significativa contribuição vocal do povo na liturgia. Os Salmos eram cantados nos cultos dominicais matutinos e vespertinos. Partindo de 1546, uma tabela impressa indicava os Salmos que deveriam ser cantados em cada ocasião. Os Saltérios se destinavam a cada culto, de acordo com os textos que eram pregados. Por volta de 1562, três Salmos eram cantados em cada culto. ¹⁰⁵

Calvino cria que o canto coletivo subjugava o coração desfalecido e restringia os afetos instáveis no caminho da piedade. Como a pregação e os sacramentos, cantar os Salmos disciplina os afetos do coração na escola da fé e eleva o crente a Deus. Cantar os Salmos amplia o efeito da Palavra no coração e multiplica a energia espiritual da igreja. Calvino escreve: “Os Salmos podem estimular-nos a elevarmos nossos corações a Deus e a despertar-nos a um ardor, seja na invocação, seja na exaltação com louvores, a glória de seu nome.¹⁰⁶ Com a diretriz do Espírito, cantar os Salmos sintoniza os corações dos crentes com a glória.

O Saltério Genebrino foi uma parte integrante do culto calvinista durante séculos. Ele estabelece o padrão para os livros salmódicos franceses de cunho Reformado, bem como os ingleses, holandeses, alemães e húngaros. Como livro devocional, ele aqueceu os corações de milhares, mas as pessoas que cantavam nele entendiam que seu poder não estava no livro ou em suas palavras, e sim no Espírito que imprimira essas palavras em seus corações.

O Saltério Genebrino promoveu a piedade, estimulando a espiritualidade da Palavra que era coletiva e litúrgica, e que derrubou a distinção entre liturgia e vida. Os calvinistas cantavam livremente os Salmos, não só em suas igrejas, mas também nos lares e nos ambientes de trabalho, nas ruas e nos campos. ¹⁰⁷ Cantar os Salmos se tornou um “meio de os huguenotes se identificarem”. ¹⁰⁸ Este pio exercício veio a ser um emblema cultural. Em suma, como escreve T. Hartley Hall, “Nas versões bíblicas ou métricas, os Salmos, juntamente com as solenes melodias às quais foram inicialmente estabelecidas, são claramente o coração e a alma da piedade reformada.¹⁰⁹“…

Notas

⁹³ CO 31:19; tradução extraída de Barbara Pitkin, “Imitação de Davi: Davi como uma Paradigma para a Fé na Exegese que Calvino faz dos Salmos”,Sixteenth Century Journal 24:4 (1993): 847.
⁹⁴ James Denney, The Letters of Principal James Denney to His Family and Friends (Londres: Hodder & Stoughton, n.d.),9.
⁹⁵ Ver James Luther Mays, “Calvin’s Commentary on the Psalms: The Preface as Introduction”, in John Calvin and the Church: A Prism of Reform, (Louisville: Westminster/John Knox Press, 1990), 201-204.
⁹⁶ Allan M. Harmam, The Psalms and Reformed Spirituality”, Reformed Theological Review 53,2 (1994), 58
⁹⁷ Comentary on the Psalms, 1:xxxxvi-xxxxix.
⁹⁸ Ibid. Psalm 5:11, 118:5.
⁹⁹ Ibid., 1xxxix. Ver James A. De Jong, “An Anatomy of All Parts of the Soul”: Insights into Calvin’s Spirituality from His Psalms Commentary”, in Calvinus Sacrae Scripture Professor (Grand Rapids: Eerdmans, 1994, 1-14.
¹⁰⁰ Comentary on the Psalms, 1:xxxix.
¹⁰¹ John Walshenbach, “The Influence of David and the Psalms on the Life and Thought of John Calvin (Th.M. thesis, Pittsburgh Theological Seminary, 1969).
¹⁰² Foram impressas mais de 30.000 cópias da primeira [edição] completa do Saltério genebrino, de 500 páginas, feitas por cinquenta editores diferentes, franceses e suícos, no primeiro ano; e, no ultimo, 27.400 cópias foram publicadas em Genebra, nos primeiros poucos meses (Jeffrey T. VanderWilt, “John Calvin’s Theology of Liturgical Song”, Christian Scholar’s Review 25 [1996]; 67. Cf. Le Psautier de Genève, 1562-1685: Images, commentées est essai de bibliographie, intro. D.D. Candaus (Geneva: Bibliothèque publique et universitaire, 1986), 1:16-18; John Witvliet, The Spirituality of the Psalter: Metrical Psalms in Liturgy and Life in Calvin’s Geneva”, in Calvin’s Study Society Papers, 1995-1997, ed. David Foxgrover (Grand Rapids: CRC, 1998), 93-119.
¹⁰³ Diferente de Lutero, Calvino tentou evitar um misto de tons seculares a canto sacro, e cria que todos os Salmos musicados devem estar no vernáculo. Calvino dizia que os motivos para se cantar Salmo litúrgico se encontram na evidência bíblica e nas práticas da igreja antiga (VaderWilt, “John Calvin’s Theology of Liturgical Song”, 72,74.
¹⁰⁴ Prefácio ao Saltério Genebrino (1562) (Charles Garside, Jr., The Origins of Calvin’s Theology of Music: 1536-1543 [Filadélfia: The American Philosophical Society, 1979], 32.33.
¹⁰⁵ Cf. John Calvin: Writtings on Pastoral Piety, editado e traduzido por Elsie Anne McKee (Nova York: Paulist Press, 2001), Parte 3.
¹⁰⁶ CO 10:12; citado em Garside, The Origins of Calvin’s Theology of Music, 10.
¹⁰⁷ Witvtliet, “The Spirituality of the Psalter”, 117.
¹⁰⁸ W. Stanford Reid, “The Battle Hymns of the Lord: Calvinist Psalmody of the Sixteenth Century”, in Sixteenth Century Essays and Studies, ed. CS. Meyer (St. Louis: Foundation for Reformation Research, 1971), 2:47.
¹⁰⁹ “The Shape of Reformed Piety”, in Robin Maas and Gabriel O’Donnell, Spiritual Traditions for the Contemporary Church (Nahiville: Abingdon Press, 1990), 215. Cf. Reid,”The Battle Hymns of the Lord”, 2:36-54.
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João Calvino – Citado por Joel BeekeEspiritualidade Reformada_Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus, p. 44-48