Todos pecaram

[Por: John Murray]

Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;” [Romanos 3:23]

“…A cláusula “todos pecaram” (v.23) encara o pecado de cada ser humano como “um fato histórico do passado” (Meyer, ad loc.). O tempo verbal empregado abrange todo aspecto no qual possa ser contemplada a pecaminosidade da raça humana; e não seríamos capazes de defender a ideia de que tal declaração se restringe ao pecado de Adão e ao envolvimento de sua posteridade (cf. Rm 5:12). O interesse do apóstolo, nesta altura, é afirmada que, sem importar as diferenças que existem entre os membros da raça, no tocante ao agravamento que intensifica a pecaminosidade de cada um, todos eles, sem exceção ou discriminação, encontram-se na categoria de pecadores (cf. v.9-10).

O significado da cláusula coordenada “e carecem da glória de Deus” não se torna evidente de imediato; existem diversas possibilidades. O verbo grego similar “faltar”, “ter falta de”, “estar destituído de” (cf. Mt 19:20; Lc 15:14; 1Co 1:7; 1Co 8:8; 1Co 12:24; Fp 4:12). Refere-se a uma condição e não a uma ação, embora, é claro, tal condição possa originar-se da ausência de uma ação que remediaria ou impediria a condição. O pensamento que suscita dificuldade e respeito do qual os comentadores diferem é este: no que consiste a glória de Deus que nos falta e da qual estamos destituídos? Existem quatro possibilidades:

(1) deixa de render glória a Deus, de glorificá-Lo ou de fazer aquilo que contribui para o louvor de sua glória (quanto a este uso de termo “glória”, cf. Lc 17:18; At 12:23; Rm 4:20; 1Co 10:31; 2 Co 4:15; 2Co 8:19; Fp 1:11; Fp 2:11; 1Ts 2:6; Ap 4:9,11; Ap 11:13; Ap 14:7; Ap 16:9);
(2) deixar de receber a glória, a honra ou a aprovação que são proporcionadas por Deus (cf. Jo 5:41,44; Jo 8:50; Jo 12:43; Rm 2:7,10; Hb 3:3; 1Pe 1:7; 2Pe 1:17);
(3) ficar aquém do refletir a glória de Deus, ou seja, não conformar-se à sua imagem (cf. 1Co 11.7; 2Co 3.18; 2Co 8.23);
(4) deixar de receber aquela glória final que será dispensada ao povo de Deus, por ocasião da volta de Cristo (cf. Rm 5.2; Rm 8:18,21; 1Co 2:7; 1Co 15.43; 2Co 4:17; Cl 1:27; Cl 3.4; 2Ts 2:14; 2Tm 2:10; Hb 2:10; 1Pe 5:1,4).

Esta dificuldade torna-se acentuada pelo fato de não existir qualquer expressão correspondente a esta no Novo Testamento, e uma boa argumentação poderia ser apresentada em favor de cada uma destas quatro interpretações. Poderíamos apenas indicar que as considerações pendem levemente em favor da interpretação 3.

(a) Paulo usa o tempo presente de um verbo que descreve um estado ou uma condição. Portanto, deveríamos concluir que ele estava pensando sobre a condição presente de todos os homens, a qual tem origem no pecado; e isso está coordenado com o fato de que todos pecaram. Esta consideração tornaria a interpretação 4 menos sustentável.
(b) Se a interpretação 1 fosse a tencionada pelo apóstolo, seria razoável supor que ele teria inserido algum outro vocábulo, tal como “dar” glória a Deus, de acordo com o padrão do uso geral do Novo Testamento ou de acordo com os padrões do próprio apóstolo; ou teria utilizado a preposição “para”, adaptando toda a expressão de modo que dissesse “para a glória de Deus”, tal como se vê nas passagens citadas na interpretação 1.
(c) Embora possamos, conforme o uso costumeiro do Novo Testamento, aplicar a frase “a glória de Deus” ao louvor que vem da parte de Deus (cf. Jo 12:43), a forma mais perspicaz, nesta conjuntura, seria “glória da parte de Deus”.
(d) É característico de Paulo retratar aquilo que a redenção garante, em contraste com aquilo que fora trazido pelo pecado, como uma transformação segundo a imagem de Deus (cf. 2Co 3:18). Ao expor em detalhes a nossa presente condição, nada seria mais pertinente ou descritivo do que defini-la em termos de nossa destituição. Estamos destituídos daquela perfeição que reflete a perfeição divina e, por conseguinte, da glória de Deus.
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John Murray –  Comentário Bíblico em Romanos – Editora Fiel, p.139-141
Fonte: Monergismo