A Aliança de Deus e a restauração dos judeus

[Por: John Murray]

Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado.
E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades.
E esta será a minha aliança com eles, Quando eu tirar os seus pecados.
Assim que, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais.
Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento.
Porque assim como vós também antigamente fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência deles,
Assim também estes agora foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia a vós demonstrada.
Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia.” [Romanos 11:25-32]

“…Conforme é característico nesta carta e, particularmente nos capítulos 9 e 11, o apóstolo recorreu às Escrituras em busca de apoio (cf. 9:12,15,17,25,27,29,33; 10:5,8,11,18-21; 11:8-9). A primeira parte da citação é extraída de Isaías 59.20-21, e a última, de Jeremias 31:34.¹³ Não podemos duvidar que Paulo considerou estas passagens do Antigo Testamento aplicáveis à restauração de Israel. Nas porções anteriores deste segmento da carta, alguns trechos escriturísticos haviam sido citados para apoiar vários desses argumentos e teses. Pode haver alusões ocultas à conversão de Israel em algumas destas ocasiões (cf. 10:9; 11:1-2). Mas esta é a primeira vez em que ocorre um expresso apelo às Escrituras, em apoio à restauração em ampla escala, sendo duvido que haja ao menos uma referência indireta a isso nestas passagens anteriores. Essa evidente aplicação é um indicativo do princípio de interpretação que deveria ser aplicado a inúmeras passagens do Antigo Testamento que exibem a mesma ideia vista em Isaías 59.20-21, ou seja, que enceram a promessa de uma expansão das bênçãos do evangelho, à semelhança daquela que Paulo enuncia nos versículos 25 e 26.¹⁴ Os elementos destas citações especificam para nós o que está envolvido na salvação de Israel. Os elementos são a redenção, o abandonar a impiedade, o selar da aliança da graça e o remover os pecados, que são o âmago das bênçãos do evangelho; e servem de índice a respeito do que significa a salvação de Israel. Não há qualquer sugestão sobre privilégio ou status, e sim sobre o que é comum a judeus e gentios na fé em Cristo.

A cláusula “esta é a minha aliança com eles” justifica maiores comentários. À parte de Romanos 9:4, onde as alianças patriarcais são mencionadas, esta é a única referência à aliança nesta carta. De acordo com a ideia bíblica de aliança (uma confirmação obrigada por juramento), temos aqui a garantia da fidelidade de Deus à sua promessa e, por conseguinte, a certeza de seu cumprimento. Esta certeza da aliança não pode ser desvinculada da proposição (em cujo apoio é citado o texto) nem daquilo que se segue no versículo 28. Portanto, o efeito é que a futura restauração de Israel está assegurada por nada menos do que a certeza pertencente à instituição da aliança. Devemos observar que as outras cláusulas, coordenadas àquela que concerne à aliança, referem-se àquilo que será feito por Deus ou pelo Libertador. De modo coerente ao conceito de aliança, a ênfase recai sobre aquilo que Deus fará, ou seja, sobre a atividade divina. Em Isaías 59:21, a aliança é afirmada em termos de outorga perpétua do Espírito e da Palavra de Deus, outro indicativo da certeza envolvida na graça da aliança.¹⁵”…

Nota:

¹³ Em Isaías 59:20, o grego difere do hebraico na segunda cláusula. Paulo citou literalmente o grego, mas o hebraico diz: “E àqueles que se converterem da transgressão em Jacó”. A primeira cláusula, na citação paulina, não corresponde exatamente ao hebraico e ao grego. O primeiro diz “a Sião” ou “por Sião”, e o grego o traduz acertadamente por “em favor de Sião”, assim como em Salmos 14:7 (na Septuaginta, 13:7). Não deve haver grande dificuldade. A preposição hebraica, neste caso, é capaz de ambas as traduções; e Paulo se sentiu em liberdade para utilizar o que desejou. Ambos os significados são corretos: o Redentor procedeu de Sião, para libertá-la. A ênfase no ensino de Paulo, nesta passagem, recai sobre o que o Redentor fará em favor de Sião. Porém, na primeira cláusula, o pensamento focaliza-se sobre a relação entre o Redentor e Sião, conforme o padrão de Rm 9.5. Isto se harmoniza à ênfase total desse contexto e ressalta a relevância da obra salvífica consumada pelo Redentor em favor de Israel como um
povo.

¹⁴ Cf. Sl 14:7; 126:1-2; Is 19:24-25; Is 27:13; Is 30:26; Is 33:20-21; Is 45:17; Is 46:13; Is 49:14-16; Is 54:9; Is 60:1-3; Is 62:1-4; Mq 7:18-20. Isto se torna mais evidente quando percebemos que Isaías 59:20 fornece a base para 60.1-3 e que 54.9-10 apresenta a mesma ênfase sobre a fidelidade da aliança, assim como em 59.20-21, o texto ao qual o apóstolo recorreu.

¹⁵ É importante notar que, embora Paulo tenha feito distinção entre Israel e Israel, descendência e descendência, filhos e filhos (cf. Rm 9.6-13), ele não faz tal discriminação em termos de “aliança”, a ponto de distinguir entre aqueles que estão na aliança, em sentido mais amplo, e aqueles que são verdadeiros participantes de sua graça.
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John Murray –  Comentário Bíblico em Romanos (A plenitude dos gentios e a salvação de Israel)
Fonte: Monergismo