A Livre Oferta do Evangelho: é Bíblica e Reformada?

[Por:Loughbrickland Reformed Presbyterian Church]

Testemunho da Free Church of Scotland

Tem havido uma discussão considerável em tempos recentes sobre o assunto da livre oferta do Evangelho. Pelo termo “livre oferta” não queremos dizer, certamente, o sistema de apelo no qual o vir a Cristo é equacionado com algum ato externo (vir à frente da assembléia, levantar uma das mãos, assinar um cartão de decisão), que pode ser feito sem uma ação soberana do Espírito de Deus, renovando o coração e a vontade. Isto seria Arminianismo. Nem nós pregamos dizendo aos não-convertidos, “Cristo morreu por você”, visto que isto estaria em conflito com o claro ensino bíblico de que Cristo morreu pelos eleitos, e não sabemos quais pecadores não-convertidos são eleitos de Deus. Todavia, por “livre oferta”, queremos dizer que no Evangelho, Deus envia aos pecadores uma proposta de misericórdia expressiva de Sua bondade para com eles.

O hiper-calvinista, certamente, nega a responsabilidade do homem de se arrepender e crer. Ele geralmente compartilha com o arminiano a suposição de que Deus não pode ordenar aos homens fazer algo que o pecado deles os incapacitou de fazer, isto é, arrepender e crer no Evangelho. O primeiro nega que Deus tenha assim ordenado, o último nega a inabilidade natural do homem para responder. O calvinista bíblico insiste que a obrigação do homem de se submeter à autoridade de Deus, não é diminuída pela sua dependência da graça e do poder soberanos de Deus para capacitá-lo a assim o fazer.

Contudo, outra posição tem aparecido, que é algo entre o hiper-Calvinismo e o Calvinismo ortodoxo. O falecido Herman Hoeksema, um hábil teólogo, e sua denominação, as Igrejas Protestantes Reformadas da América, tomaram a visão de que, embora Deus ordene todos os homens a se arrepender e crer (e eles sejam responsáveis de assim o fazer), todavia, não há nenhuma oferta ou proposta de misericórdia expressiva da bondade amorosa ou favor de Deus para aqueles que ouvem (eleitos e não-eleitos). Isto está em linha com sua negação de que Deus nunca mostra favor de qualquer espécie para os não-eleitos.

Então, as Confissões presbiterianas de Westminster estão no caminho certo, ao insistir que a pregação do Evangelho transmite uma proposta graciosa de misericórdia, endereçada a todos os que ouvem? Olhemos para esta questão:

1. O Evangelho contém uma ordem de Deus
Deus ordena a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (Atos 17:30). Os homens são ordenados a olharem para Cristo, para salvação (Isaías 45:22). O Apóstolo Paulo fala da “obediência da fé” (Romanos 16:26, conforme 1:5). Os réprobos são descritos como desobedientes (1 Pedro 2:7-8 e 4:17). A incredulidade é pecado (João 16:9, Hebreus 3:12 e 17-18). Isto não implica capacidade natural, mas implica responsabilidade.

2. Deus mostra uma bondade amorosa para os não-eleitos nesta vida
Deus restringe o pecado, concede coisas materiais e uma variedade de habilidades para os não-eleitos nesta vida presente. Não somente isso, mas elas [as concessões] são expressões genuínas da bondade amorosa de Deus para com eles. Ele é “benigno até para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35). Deus “abençoou” o réprobo Ismael (Gênesis 17:20) e é “longânimo” para com os vasos de ira (Romanos 9:22), que desprezam Sua benignidade e paciência (Romanos 2:4). Realmente, é sua ingratidão para com os favores genuínos de Deus que os torna tão culpados (Romanos 1:21). “O Senhor é bom para todos”, lemos em Salmos 145:9. Que os nossos antepassados Puritanos entenderam isto, é indicado pelo fato que eles estavam contentes com a segunda versão deste salmo no saltério escocês, que tinha sido cuidadosamente examinado, o qual trazia “bom para todos os homens é o Senhor”. É no sentido que Deus mostra amor ou favor para os não-eleitos, assim como para os eleitos neste mundo, que usamos o termo “graça comum”, embora não estejamos aqui particularmente preocupados em defender o termo, mas somente o conceito. Esta bondade não-salvadora de Deus para com os não-eleitos neste mundo, é uma expressão de Sua soberania. Alguns objetam que a idéia de Deus mostrar favor imerecido a um pecador somente por um tempo é inconcebível. Isto é devido à uma má aplicação da doutrina da imutabilidade de Deus. A negação da graça comum, supostamente em defesa da soberania de Deus, torna-se, na verdade, numa negação desta soberania. Deus pode mostrar misericórdia quando e como Lhe agradar.

3. Nosso dever de amar é padronizado segundo o amor de Deus
Em Mateus 5:44-48 (conforme Lucas 6:32-36), nosso amor para com nosso próximo, até mesmo para com os nossos inimigos, deve ser aquele que nos conforme ao nosso Pai Celestial. A semelhança familiar é demonstrada em nós amarmos assim como Ele ama. Nós não sabemos se nosso próximo ou inimigo é um dos eleitos ou não, mas ainda assim devemos amá-los. E este amor deve ser baseado no que sabemos do nosso Pai no Céu, e não no que não sabemos (isto é, quem Ele escolheu para salvação). Devemos ser misericordiosos porque nosso Pai é misericordioso (Lucas 6:36).

Além disto, o mandamento de amar nosso próximo (eleito ou réprobo) é parte daquela lei que é o resplendor do caráter santo de Deus. Deus ordena que amemos aqueles que Ele não ama? O escopo de nosso amor é maior do que o Seu?

No mundo vindouro, não mostraremos amor para com os perdidos, pois Deus não o fará. Conformidade à Deus é a chave.

4. Cristo cumpriu a Lei Moral inteiramente
O mandamento para amar nosso próximo foi perfeitamente cumprido por Cristo. Ele “foi feito sujeito à lei, que ele cumpriu perfeitamente” (Confissão de Fé de Westminster, VIII:IV). Para isto ser verdade, Ele deve ter mostrado amor tanto ao próximo eleito como ao próximo réprobo, como Deus requer que nós façamos. Além disso, dizer que Cristo amou somente Seu próximo em Sua natureza humana, é dividir hereticamente a pessoa de Cristo, que “se fez homem, e assim foi e continua a ser Deus e homem em duas naturezas distintas, e uma só pessoa, para sempre.” (Breve Catecismo, Resposta 21). Suas lágrimas derramadas sobre Jerusalém (Lucas 19:41-42) eram, sem dúvida, lágrimas humanas, mas eram as lágrimas de uma Pessoa Divina em Sua natureza humana, da mesma forma que Seus sofrimentos eram os sofrimentos de uma Pessoa Divina em Sua natureza humana e, portanto, tanto infinita em valor como substitutiva para os homens.

5. O Amor de Deus é Expresso no Evangelho
a. O evangelho é mais do que uma declaração do amor de Deus para com os eleitos. Alguns dizem que o amor de Deus é apresentado no Evangelho, significando que Seu amor, como mostrado aos eleitos, é pregado somente à medida que o significado da Cruz é declarado. Isto é verdade até certo ponto. Todavia, há mais a ser dito:

b. Deus expressa Sua bondade amorosa a todos que ouvem o Evangelho: Isto é mostrado: –

(i) No conteúdo do Evangelho
Ele inclui uma expressão de deleite no bem-estar daqueles que ouvem, embora Ele não tenha decretado que todos que ouvem crerão.

Podemos comparar isto com o fato de que Deus ordena todos os homens a se arrependerem e, portanto, a serem santos, e no fato dEle Se deleitar nesta santidade contemplada, mas não ter decretado que todos serão realmente santos. Da mesma forma, Deus convida todos os homens à verdadeira e eterna felicidade e, como uma expressão de Seu soberano amor e benignidade, tem prazer na felicidade em vista, sem ter decretado que todos creiam e alcancem esta felicidade.

Resumindo, assim como Deus em Sua santidade genuinamente ordena que todos os homens sejam santos, sem fazê-lo santos, assim Ele em Seu amor genuinamente convida todos os homens a serem felizes, sem fazê-los eternamente felizes (Deuteronômio 5:29, 32:29, Salmos 81:13, Isaías 48:18). Deus pode expressar um deleite no que Ele não tenha decretado que aconteça. Freqüentemente a negação da livre oferta deriva de um nobre, mas mal direcionado, desejo de não representar Deus como contrariado, frustrado ou impotente. Isto explica o porquê a negação da livre oferta na história tem sido freqüentemente ligada com o Antinomianismo. Se uma oferta não-realizada é inconsistente com a soberania de Deus, por que não também uma ordem não-realizada? A verdade é, certamente, que nenhuma das duas implica que Deus não está no controle.

Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que razão morrereis, ó casa de Israel?” (Ezequiel 33:11). O contexto deixa claro que aqueles em cuja morte Deus não tem prazer, inclui aqueles que não se convertem e que morrem, assim como aqueles que se convertem e vivem (veja versos 8-9).

Calvino escrevendo sobre a passagem similar em Ezequiel 18:23 (ele morreu antes de terminar seu comentário sobre Ezequiel), declara: “Sustentamos, então, que Deus não deseja a morte de um pecador, visto que Ele chama todos igualmente ao arrependimento, e promete estar Ele mesmo preparado para recebê-los, se somente eles se arrependerem seriamente. Se alguém então desejar objetar que não há nenhuma eleição de Deus, pela qual Ele tenha predestinado um numero fixo para salvação, a resposta está à mão: o profeta não fala aqui de um mandamento secreto de Deus, mas somente lembra os homens miseráveis em desespero, que eles podiam apreender a esperança de perdão, e se arrepender e abraçar a salvação oferecida”.

Assim, a proposta do Evangelho expressa a bondade amorosa de Deus àqueles a quem ele é endereçado. E ele é endereçado aos pecadores em geral, mesmo àqueles que ainda procuram satisfação fora de Cristo, que estão gastando “dinheiro naquilo que não é pão e o produto do seu trabalho naquilo que não pode satisfazer” (Isaías 55:2) e que não podem, portanto, serem confinados aos eleitos.

(ii) Na piedosa compaixão do pregador
O tipo de compaixão piedosa do Apóstolo Paulo expressa em Romanos 9:1-3 e 10:1 é o fruto da obra do Espírito na alma. O Espírito Santo não cria no povo de Deus uma compaixão que é contrária à Sua própria com respeito aos seus objetos. Quando o cristão compassivo é um pregador, ele expressa esta compaixão dada por Deus aos pecadores culpados, merecedores do inferno, em sua pregação, assim como um reflexo da compaixão do Senhor, em nome de quem e em favor de quem ele fala. “De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse. Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus.” (2 Coríntios 5:20).

6. Os Padrões de Westminster
O termo “oferta” ou “livre oferta” é usado nos Padrões de Westminster (Confissão de Fé de Westminster VII:III; Catecismo Maior, Respostas 32, 63, 68; Breve Catecismo, Respostas 31 e 86).

O Catecismo Maior coloca fora de qualquer dúvida que o termo é usado com referência a pessoas não-eleitas; “…pela sua negligência e desprezo voluntário da graça que é oferecida, são justamente deixados na sua incredulidade e nunca vêm sinceramente a Jesus Cristo” (Breve Catecismo, Resposta 68).

Tentativas têm sido feitas ultimamente para roubar o termo “livre oferta” de seu real significado, como se ele significasse nada mais do que “apresentar” ou “exibir” (veja H. Hanko, Protestant Reformed Journal Nov. 1986, pp. 16f ). O significado pretendido é muito maior do que este. Qualquer um que desejar captar o verdadeiro significado destes termos e a visão geral do período Puritano, deverá ler o “Sum of Saving Knowledge” [A Suma do Conhecimento Salvador], redigido por David Dickson e James Durham, e freqüentemente impresso juntamente com a Confissão e os Catecismos de Westminster, sem dúvida devido à sua reivindicação de ser “A Brief Sum of Christian Doctrine contained in the Holy Scriptures, and holden forth in the foresaid Confession of Faith and Catechisms” [Uma Breve Suma da Doutrina Cristã contida nas Sagradas Escrituras, e sustentada na supramencionada Confissão de Fé e Catecismos]. A seção sobre “Justificativas para Crer” e seu tratamento de Isaías 55:1-5 e 2 Coríntios 5:19-21 são especialmente dignos de nota e as muitas referências às promessas de Deus, ofertas de graça, doces convites, amáveis pedidos, etc.

7. Submissão à Escritura
Você tem dificuldade de reconciliar as propostas genuínas do Evangelho com a verdade da eleição e predestinação soberana de Deus? Permitir tal dificuldade, que faz com que você rejeite o claro testemunho bíblico da realidade destas propostas graciosas, é se prostrar diante do falso deus humanista da determinação da razão humana, e é a própria antítese do verdadeiro Calvinismo bíblico. Enquanto que toda a Palavra de Deus é racional, nossos poderes de razão são aqueles de uma criatura finita e caída. Devemos nos curvar diante das palavras que procedem da boca de Deus. É o orgulho do homem caído, em sua própria razão, fazendo-o prestar novamente atenção às palavras da serpente, “É assim que Deus disse?” (Gênesis 3:1).

Gloriquemos a Deus e digamos: “Estimo como retos, em tudo, todos os teus preceitos” (Salmos 119:128).
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Loughbrickland Reformed Presbyterian Church – The Free Offer Of The Gospel: Is It Biblical And Reformed? (from the Free Church Witness)
Fonte – Monergismo
Tradução – Felipe Sabino