O Senhor é bom para todos!

[Por: João Calvino]

O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras.
Todas as tuas obras te louvarão, ó Senhor, e os teus santos te bendirão. [Salmos 145:9,10]

“…9. Jehovah é bom para com todos. A verdade aqui afirmada tem uma aplicação mais ampla do que a primeira, pois a declaração de Davi tem este sentido: Deus, com indulgência e demência paternais, não somente perdoa o pecado, mas também é bom para com todos sem discriminação, visto que faz o seu sol nascer sobre os bons e sobre os maus [Mt 5.45]. O perdão dos pecados é um tesouro do qual os perversos estão excluídos, mas seu pecado e depravação não impedem a Deus de exibir sua bondade sobre eles, da qual se apropriam sem sentir por ela qualquer afeição. No entanto, os crentes, e somente eles, sabem o que é essa bondade; por isso, desfrutam de um Deus reconciliado, como lemos em outro salmo: “Contemplai-o e sereis ilu-minados, e o vosso rosto jamais sofrerá vexame. Provai e vede que o SENHOR é bom” [SI 34.5, 8]. Quando ele acrescenta que a misericórdia de Deus se estende a todas as suas obras, isso não deve ser considerado como contrário à razão ou obscuro. Havendo nossos pecados envolvi-do o mundo inteiro na maldição divina, em toda parte há oportunidade para o exercício da misericórdia divina, inclusive em socorrer a criação irracional.

10. Todas as tuas obras. Embora muitos não proclamem os louvores de Deus, mantendo um silêncio perverso a respeito deles, Davi declara que esses louvores resplandecem por toda parte, surgem por si mesmos e ressoam, por assim dizer, por meio do silêncio das criaturas. Ele ressalta a obra especial de declará-los aos crentes, que têm olhos para perceber as obras de Deus e sabem que não podem ser mais bem empregados do que em celebrar as misericórdias de Deus. O que ele acrescenta em seguida: anunciarão a glória do teu reino, considero que tem referência somente aos crentes. Se alguém se inclina a crer que estas palavras se aplicam às criaturas de Deus, universalmente, não faço objeção a tal ponto de vista. Mas o tipo particular de discurso ou ensino ao qual Davi se refere aqui aplica-se exclusivamente aos santos. Conseqüentemente, tenho retido o tempo futuro dos verbos, em vez do modo optativo, como outros o têm feito. Ao usar o termo reino, Davi que dizer que esta é a tendência da manifestação das obras de Deus, ou seja, reduzir o mundo inteiro a um estado de ordem e sujeitá-lo a seu governo. Ele insiste na excelência deste reino, para que os homens saibam que as coisas devem ser consideradas como em desordem e confusão, se Deus, e tão-somente ele, não é reconhecido como supremo. O salmista nega que esse reino seja transitório, como todos os reinos terrenos, asseverando que permanece firme para todo o sempre. E, para chamar nossa atenção mais particularmente à natureza eterna do reino, ele irrompe numa admirável exclamação e dirige seu discurso a Deus.”…
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João Calvino – Comentário nos Salmos vol.4 – Editora Fiel
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