Calvino, o anticristo e Maomé

[Por: João Calvino]

Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição,” [2 Tessalonicenses 2:3]

Se manifeste. Não era melhor do que uma fábula de velhas que se concebeu a respeito de Nero – que ele fora arrebatado do mundo, destinado a voltar novamente para afligir a Igreja¹⁵⁷através da sua tirania; e, contudo, as mentes dos antigos estavam tão enfeitiçadas, que eles imaginavam que Nero seria o Anticristo. Contudo, Paulo não fala de um indivíduo, mas de um reino, que seria apoderado por Satanás, para que ele estabelecesse um trono de abominação em meio ao templo de Deus – o que vemos cumprido no Papado. É verdade que a rebelião se espalhou mais extensamente, pois Maomé, como era um apóstata, desviou de Cristo os turcos, seus seguidores. Todos os hereges têm quebrado a unidade da Igreja pelas suas seitas, e assim tem havido correspondente número de rebeliões contra Cristo¹⁵⁸.

Contudo, ao dar o alerta de que haveria tal dispersão, que a maior parte se revoltaria contra Cristo, Paulo acrescenta algo mais sério – que haveria tal confusão, que o vigário de Satanás manteria o poder supremo na Igreja, e a presidiria ali no lugar de Deus. Ora, ele descreve esse reinado de abominação sob o nome de uma única pessoa porque é apenas um reinado, embora um suceda ao outro. Meus leitores agora entendem que todas as seitas pelas quais a Igreja tem sido reduzida desde o princípio têm sido tantas correntes de rebelião que começaram a drenar a água do curso original; mas que a seita de Maomé foi como que um jorro impetuoso de água, que removeu quase a metade da Igreja pela sua violência. Restava, ainda, que o Anticristo infectasse a parte restante com o seu veneno. Assim, vemos com os nossos próprios olhos que esta predição memorável de Paulo tem se confirmado pelo evento.“…

¹⁵⁷. “Pour tourmenter griefvement l’Eglise;” — “Para atormentar terrivelmente a Igreja.” 
¹⁵⁸. A estranha ideia referida aqui por Calvino quanto a Nero é explicada por Cornelius à Lapide em seu Comentário sobre Apocalipse, a partir do fato de que Alcazar, tendo explicado a expressão que ocorre em Ap 13:3, “E vi uma das cabeças como que ferida de morte”, como se referindo a Nero morto, e logo depois ressuscitado, por assim dizer, e revivendo na pessoa de Domiciano, seu sucessor; alguns dos antigos, entendendo literalmente o que fora pretendido por ele figuradamente, conceberam a ideia de que Nero seria o Anticristo, e ressuscitaria, e apareceria novamente no fim do mundo.—Ed.
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João Calvino – Comentários em 1 e 2 Tessalonicenses
Fonte – Monergismo
Biblioteca João Calvino – Comentários de João Calvino