Sobre a observância de dias

[Por: João Calvino]

Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz e o que não faz caso do dia para o Senhor o não faz.” [Romanos 14:6]

Uma vez que Paulo sabia muito bem que a observância de dias era procedente da ignorância em relação a Cristo, não cremos que ele saísse em campo em sincera defesa de tal corrupção. E no entanto suas palavras parecem subentender que aqueles que observam dias não estão cometendo nenhuma agravante, porque Deus só pode aceitar o que vem de sã consciência. É necessário, pois, caso queiramos entender seu propósito, distinguir entre a opinião nutrida por alguns acerca dos dias a serem observados e a própria observância à qual se acham comprometidos. A opinião humana é supersticiosa, e Paulo não nega isso. Aliás, ele já a condenou ao denominá-la de fraqueza, e uma vez mais fará isso de forma ainda mais franca. Se alguém se vê emaranhado por tal superstição, então hesita em violar a solenidade de um dia, e Deus condena tal atitude, visto que o indivíduo hesita em fazer algo com sua consciência espicaçada pela dúvida. É lícito a um judeu fazer algo caso não haja ainda se libertado da supersticiosa observância de dias? Ele tem a Palavra do Senhor na qual se recomenda a observância de dias. A necessidade de tal observância é-lhe imposta pela própria lei, mas ele ainda não percebe que ela já foi abolida. Não há nada que possa fazer senão esperar por uma revelação mais plena, e a restringir-se aos limites de sua própria capacidade, nem pode ele desfrutar a bênção da liberdade sem que seja ela abraçada pela fé.⁶”…

Nota
⁶ Tem-se sugerido como pergunta, por alguns, se o Sábado cristão está incuído aqui. O próprio tema em discussão é a observância dos dias judaicos, como em Gálatas 4:10 e Colossenses 2:16, e não o que pertenciam aos cristãos em comum.
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João Calvino – Comentários em Romanos 14
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