Cantai ao SENHOR um Salmo novo

[Por: João Calvino]

Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo.” [Salmos 33:3]

“…Cantai-lhe um cântico novo. Visto que o salmista mais adiante trata das portentosas obras de Deus, e particularmente acerca da preservação da Igreja, não causa surpresa que ele exorte os justos a cantarem um cântico novo, isto é, um cântico raro e selecionado. Quanto mais atenta e diligentemente os crentes consideram as obras de Deus, mais eles se aplicarão em seus louvores. Portanto, não é um cântico comum que ele os exorta a cantar, mas um cântico correspondente à magnificência do sujeito. Este é também o significado da segunda cláusula, na qual ele insiste que cantem bem alto. É neste sentido que entendo a palavra hebraica היתיב, heytib, ainda que outros a aplicam antes à colocação correta das notas.”…
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João Calvino, Comentários dos Salmos. Volume II. Editora Fiel, p. 52

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E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e temerão, e confiarão no Senhor.” [Salmos 40:3]

“…3. E pôs em minha boca um novo cântico. Na primeira cláusula do versículo, ele conclui a descrição do que Deus lhe havia feito. Com a expressão, Deus pôs um novo cântico em minha boca, ele denota a consumação de seu livramento. Seja qual for a maneira em que Deus se apraz em socorrer-nos, ele não exige nada mais de nós senão que sejamos agradecidos pelo socorro e o guardemos na memória. Portanto, à medida em que ele nos concede seus benefícios, tão logo abramos nossa boca e louvemos seu nome. Visto que Deus, ao agir liberalmente para conosco, nos encoraja a cantar seus louvores, Davi com razão reconhece que, havendo sido tão portentosamente liberto, o tema de novo cântico lhe fora fornecido. Ele usa o termo novo no sentido de raro e não ordinário, ainda quando a maneira de seu livramento era singular e digno de eterna memória. É verdade que não há benefício divino tão minúsculo que dispense nossos mais elevados louvores; quanto mais ele estende sua mão, porém, visando a nos socorrer, mais devemos incitar-nos um fervoroso zelo neste santo exercício, de modo que nossos cânticos correspondam à grandeza do favor que porventura nos tenha sido conferido.”…
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João Calvino, Comentários dos Salmos. Volume II. Editora Fiel, p. 208-209

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Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR toda a terra.” [Salmos 96:1]

“…1. Cantai a Jehovah um cântico novo. Este início revela que, como já observei, o salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como o meio de comunicar o conhecimento de Deus. A declaração do apóstolo tem de ser necessariamente válida: “Como invocarão aquele em quem não creram?” [Rm 10.14]. O mesmo apóstolo prova a vocação dos gentios, anexando o testemunho dela: “Louvai ao Senhor, vós, gentios, com seu povo” — do quê se deduz que a comunhão na fé está conectada com a celebração uníssona de louvor [Rm 15.11]. Além disso, o salmista demanda um novo cântico,² não um que fosse comum e já anteriormente celebrado. Portanto, ele estaria se reportando a alguma exibição inusitada e extraordinária da bondade divina. E assim, quando Isaías fala da restauração da Igreja, a qual seria maravilhosa e inusitada, diz ele: “Cantai ao Senhor um cântico novo” [Is 42.10]. O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilharia do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.”…

Nota
². Deparamo-nos com um Salmo muito parecido a este em 1 Crônicas 16, entregue por Davi a Asafe, para ser cantado por ocasião da remoção da arca da casa de Obede-Edom para Sião. Mas a ode, como se acha em 1 Crônicas 16, é consideravelmente mais longa, estendendo-se do versículo 8 ao 36; e essa é apenas a parte dele do versículo 23 ao 33. A suposição é que esta parte foi extraída do Salmo supramencionado; e, com umas poucas alterações inconsideráveis, adaptadas à solenidade da dedicação do segundo templo. Esta opinião se fundamenta no título do Salmo como se acha nas versões Septuaginta, Vulgata, Etiópica e Arábica, ou, seja: “Um cântico de Davi quando a casa foi construída depois do cativeiro.” Consequentemente, estritamente falando, este não é um novo cântico. Mas pode ser chamado novo por haver sido adaptado para um novo propósito — de pretender o mesmo ser a celebração das novas misericórdias conferidas aos judeus e de elevar a mente para a gloriosa era da vinda do Messias e o estabelecimento de seu reino, que era, provavelmente, um assunto de expectativa mais geral no seio do povo eleito, no período quando o templo foi construído do que quando a arca foi conduzida ao Monte Sião, levada da casa de Obede-Edom. Pode-se observar ainda que o primeiro versículo não está no poema original, como registrado no livro de Crônicas, mas parece ter sido adicionado para uma nova ocasião à qual este Salmo mais breve foi adaptado.
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João CalvinoComentários dos Salmos. Volume III. Editora Fiel, p. 536-537

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Cantai ao SENHOR um cântico novo, ” [Salmos 98:1]

“…9. A ti, ó Deus, eu cantarei um cântico novo. Uma vez mais, o salmista se dedica, de forma bem pessoal, ao exercício de louvar a Deus, não duvidando que Ele continuaria estendendo aquelas misericórdias que antes lhe outorgara. Em outra passagem, chamei a atenção ao fato de que a expressão um cântico novo implica um cântico de um tipo singular e incomum. Com isso somos levados a inferir que as expectativas de Davi se estendiam além das conclusões do juízo humano, pois, com uma visão da grandeza do auxílio a ser estendido, ele promete um cântico de louvor sem precedente em sua natureza e distinto, pelo título que lhe é aplicado, das ações de graças ordinárias.”…
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João CalvinoComentários dos Salmos. Volume III. Editora Fiel, p. 543-544

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Louvai ao SENHOR. Cantai ao SENHOR um cântico novo, e o seu louvor na congregação dos santos.” [Salmos 149:1]

“…1. Cantai a Jehovah um cântico novo. Este imperativo comprova o que acabo de dizer, ou seja, que a exortação ministrada é dirigida exclusivamente ao povo de Deus, pois a bondade singular que lhes foi estendida de modo particular proporciona o mais amplo motivo de louvor. A conjetura provável é que o Salmo foi composto no tempo em que o povo passou a regozijar-se depois que voltou a sua terra natal, ao deixar o cativeiro babilônico. Com base no contexto, veremos que há uma promessa de restauração de sua condição arruinada. O objetivo do salmista, creio eu, é encorajá-los a esperar o pleno e completo livramento, cujo prelúdio foi súbita e inesperadamente dado na permissão de regresso. Como a Igreja não foi restaura imediata e completamente, mas somente com dificuldade e depois de longo período é que ela foi conduzida a um estado de vigor, um conforto como esse era muito necessário. O Espírito de Deus também forneceria um remédio para os males que se manifestariam mais tarde, pois foi com dificuldade que a Igreja passou a respirar, quando foi novamente assaltada por vários males e oprimida pela tirania de Antíoco, que foi seguida por uma terrível dispersão. Portanto, o salmista tinha motivo justo em animar os piedosos a buscarem a plena concretização da misericórdia de Deus, para que fossem persuadidos da proteção divina, até que chegasse o tempo do Messias, para o ajuntamento de todo o Israel.

Ele chama este salmo de um novo cântico, como já observamos em outra passagem, a fim de distingui-lo daqueles cânticos com que os santos louvavam a Deus habitual e diariamente, pois o louvor era a prática permanente deles. Por conseguinte, o salmista fala sobre um raro e inusitado benefício, que exige ação de graças extraordinária e pessoal. Estou disposto a crer que, não importando quem tenha sido o autor deste salmo, ele se referiu àquela passagem de Isaías [42.10]: “Cantai ao SENHOR um cântico novo“, quando falou sobre a futura restauração da Igreja e do reino eterno de Cristo. Na segunda sentença do versículo, há uma promessa implícita; pois, embora continue exortando o povo do Senhor a que entoassem juntos os louvores de Deus, o salmista sugere, em associação com isso, que a Igreja se reúna novamente em um só corpo, de modo a celebrar os louvores de Deus na assembléia solene. Sabemos que os israelitas foram dispersos de tal maneira, que os cânticos sacros cessaram de ser entoados, pois em outro salmo eles se queixam de ser intimados a cantar: “Como entoaremos os cânticos do SENHOR em terra estranha?” [Sl 137.4]. Portanto, ele os convida, depois dessa triste dispersão, a prepararem-se novamente para a manutenção de suas assembleias sagradas.”…
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João CalvinoComentários dos Salmos. Volume IV. Editora Fiel, p. 593-594
Fonte: Biblioteca João Calvino