Instrumentos musicais e a infantilidade da igreja

[Por: João Calvino]

Sobre um instrumento de dez cordas, e sobre o saltério; sobre a harpa com som solene.” [Salmos 92:3]

“…No terceiro versículo, ele prontamente se dirige aos levitas, os quais foram designados ao ofício de cantores, e os convoca a empregar seus instrumentos musicais — não como se fossem em si mesmos necessários, mas só eram úteis como um auxílio elementar ao povo de Deus nos tempos antigos. Não devemos imaginar que Deus prescreveu a harpa como se sentisse, como nós, deleite na mera melodia dos sons; porém os judeus, que já estavam sob o peso dos anos, se restringiam ao uso de elementos tão infantis. O propósito deles era estimular os adoradores e incitá-los a mais ativamente exercer a celebração do louvor divino de todo o coração. Devemos lembrar que o culto divino nunca dever ser tomado como que consistindo em tais serviços externos, os quais só eram necessários para ajudar um povo fervoroso, porém ainda fraco e rude de conhecimento, no culto espiritual celebrado a Deus. É preciso observar a diferença, neste aspecto, entre seu povo sob o Velho e sob o Novo Testamento; pois agora que Cristo já se manifestou, e a Igreja já alcançou a plena maturidade, se introduzíssemos as sombras de uma dispensação expirada só iríamos sepultar a luz do evangelho. Disto transparece que os papistas, como tive ocasião de mostrar em outro lugar, ao empregarem música instrumental, não se pode dizer que imitam a prática do antigo povo de Deus, mas o imitam de uma maneira insensata e absurda, exibindo um tolo deleite naquele culto do Velho Testamento que era figurativo e que foi extinto com a vinda do evangelho.

Nota

⁴. Mas ainda que Calvino sustentasse que o uso da música instrumental em culto público era inconsistente com o gênio da dispensação cristã, ele considerava a celebração dos louvores de Deus com a melodia da voz humana como uma instituição de grande solenidade e proveitosa. Ele sabia que o cântico de Salmos está sancionado pelos apóstolos, e que a música exerce uma poderosa influência em excitar a mente ao ardor da devoção; e a ele pertence o mérito de ter, com a recomendação de Lutero, formado o plano de estabelecer, como um ramo principal do culto nas Igrejas Reformadas, o cântico de Salmos, traduzido no idioma vernáculo, e adaptou melodias claras e fáceis, para que todo o povo pudesse aprender e pudessem todos participar. Imediatamente à publicação da versão de Clement Marot dos Salmos de Davi em rimas francesas de Paris, ele a introduziu em sua congregação de Genebra, posta em música clara e popular; e logo entrou para o uso universal em todas as numerosas congregações da Igreja Reformada da França. Por fim os Salmos de Marot formaram um apêndice ao Catecismo de Genebra e veio a ser uma marca ou emblema característico do culto e profissão de fé calvinistas. A tradução de Marot, a qual não almejava qualquer inovação no culto público, e a qual ele dedicou a seu senhor Francisco I e às damas da França, recebeu a princípio a sanção da Sorbone, como nada contendo que contrariasse a sã doutrina. Calvino, porém, conhecia o caráter do livro melhor que os doutores da Sorbone, e tendo, por meio de sua influência, obtido sua introdução no culto da Igreja Protestante da França, contribuiu tanto, em consequência de sua extraordinária popularidade, para o avança da causa da Reforma naquele país, que foi interditado sob as mais severas penalidades; e, na linguagem da Igreja de Roma, cantar Salmos e heresia vieram a ser termos sinônimos. — Warton’s History of English Poetry, vol. III. pp. 164, 165…”
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João Calvino, Comentários dos Salmos. Volume III. Editora Fiel, p. 478-479
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