A idolatria do Magistrado Civil

[Por: João Calvino]

“…9. Agora, e preciso expor brevemente qual é o oficio dos magistrados, tal como é descrito pela Palavra de Deus, e examinar sua natureza. Se a Escritura não nos ensinasse que essa autoridade diz respeito às tábuas da Lei, estaríamos em condições de entendê-lo pelos autores profanos: porque nenhum deles discorreu sobre o ofício do magistrado, da promulgação das leis e da ordenação da sociedade sem que tivesse começado pela religião e o culto divino. Ensinam assim que não e possível estabelecer um regime político sem antes providenciar que aquilo que concerne ao culto divino, e que as leis que não levam em conta a honra devida a Deus, mas procuram somente a consecução do bem comum. colocam a carroça à frente dos bois. Portanto, se a religião ocupou sempre o primeiro e supremo lugar entre os filósofos, e essa prioridade foi constantemente observada pelos povos, os príncipes e magistrados cristãos devem envergonhar-se de sua negligência caso não se apliquem com grande empenho nessa matéria. Demonstramos em outro lugar que, não sem motivo, Deus lhes confiou este encargo. É, pois, perfeitamente razoável que, sendo seus representantes, devam se empenhar na manutenção da honra divina. Os bons reis eleitos por Deus são expressamente louvados na Escritura por haverem restaurado o culto divino quando este se achava corrompido ou decadente, ou então por terem se ocupado para que a verdadeira religião florescesse e permanecesse em sua integridade. Ao contrário, porém, a História Sagrada diz que entre os vícios decorrentes da ausência de rei em Israel está a superstição porque “cada um faz o que bem lhe parece” (Jz 21:25). Daí é fácil de desmascarar a estultice daqueles que desejam que os magistrados negligenciem o culto divino e a religião para se ocuparem apenas em fazer justiça aos homens. Como se Deus tivesse constituído as autoridades para que, em seu nome, decidissem as controvérsias terrenas, mas, deixassem de lado o principal, a saber, que ele deve ser servido com pureza conforme a determinação de sua Lei..”…
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João Calvino – A Instituição da Religião Cristã, Tomo II, Capítulo XX (Do  Poder Civil)Editora Unesp. p. 882
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