Circuncisão, Batismo e a Aliança

[Por: João Calvino]

“…3. Uma vez que, antes de o batismo ser instituído, o povo de Deus tinha a circuncisão em seu lugar, investiguemos em que estes dois signos diferem entre si e por qual semelhança convergem; a partir daí, ficará patente qual é a anagoge de um em relação ao outro.

Quando o Senhor ordena a circuncisão a Abraão, afirma que há de ser o Deus dele e de sua descendência (Gn 17:7-10), acrescentando que nele há abundância e plenitude de todas as coisas, para que Abraão soubesse que a mão do Senhor é a fonte de todo bem. Nestas palavras está contida a promessa da vida eterna, como o interpreta Cristo. quando apresenta esse passo como argumento para provar a imortalidade e a ressurreição dos fiéis. Pois diz: “porque não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mt 22:32; Lc 20:38). E por isso Paulo, mostrando aos efésios de que ruína o Senhor os livrou, conclui que não haviam sido admitidos na aliança da circuncisão; que estavam sem Cristo, sem Deus, sem esperança, estranhos às promessas (Ef 2:12); tudo o que a aliança compreendia em si. Mas o primeiro passo em direção a Deus, a primeira porta para a vida eterna é a remissão dos pecados. De onde se conclui que, quanto à nossa purificação, esta promessa corresponde à do batismo.

Depois o Senhor estipula a Abraão que caminhe diante dele em sinceridade e inocência de coração; o que diz respeito à mortificação ou regeneração. E, para que ninguém duvide que a circuncisão é signo da mortificação, Moisés explica-o mais claramente em outro lugar, quando exorta ao povo de Israel a circuncidar o prepúcio do coração para o Senhor (Dt 10:16), porque era o povo que Deus havia escolhido entre todas as nações da terra. Da mesma forma que Deus, quando adota a posteridade de Abraão como seu povo, prescreve-lhe que se circuncide, assim também Moisés declara que é preciso ser circuncidado no coração; isto é, dizendo qual é a verdade dessa circuncisão carnal (Dt 30:6). Então, para que ninguém tentasse chegar a ela por suas próprias forças, Moisés ensina que ela é obra da graça de Deus. Todas essas coisas são repisadas tantas vezes nos profetas que não há necessidade de acumular testemunhos, os quais ocorrem espontaneamente a cada passo.

Por conseguinte, concluímos que os pais tiveram na circuncisão a mesma promessa espiritual que nos é dada agora no batismo, visto que figurava para eles a remissão dos pecados e a mortificação da carne. Além disso, como já o ensinamos, Cristo é o fundamento do batismo, em que ambas coisas residem; e igualmente o é da circuncisão. Pois ele é o que foi prometido a Abraão, e, nele, está a benção de todas as nações (Gn 12:2). A esta graça que deve ser selada, acrescenta-se o signo da circuncisão.”…
___________________________________________________________________
João Calvino – A Instituição da Religião Cristã, Tomo II, Capítulo XX (O pedobatismo está de acordo com a instituição de Cristo e com a natureza do signo)Editora Unesp. p. 764-765
As Institutas, produzidas pela UNESP e disponibilizadas pelo Google:
TOMO 1
TOMO 2