A Falta de Mortificação de Pecados e seus Males

[Por: John Owen]

“…Há dois males que certamente afetam todo crente não mortificado: o primeiro é quanto a si mesmo; o segundo, quanto aos outros.

Quanto a si mesmo: por mais que finja, o não mortificado não considera o pecado com gravidade – pelo menos os pecados da fraqueza de todo dia. A raiz de uma vida não mortificada está em digerir o pecado sem a sentir amargor no coração. Quando alguém legitima a própria imaginação com um conceito de graça e de misericórdia que lhe permite engolir e digerir o pecado diário sem amargor, a pessoa endurecida pelo engano do pecado está pronta para converter a graça de Deus em licenciosidade. Não há no mundo maior prova de um coração falso e corrompido do que tal perversão. Usar o sangue de Cristo, dado para nos purificar (1 Jo 1.7; Tt 2.14); a exaltação de Cristo, que nos leva ao arrependimento (At 5.31); e a doutrina da graça, que nos ensina a repudiar toda a impiedade (Tt 2.11-12), para justificar o pecado é uma rebelião cujo resultado quebrará os ossos. Foi desse modo que se apartou de nós a maioria dos crentes professos que apostataram nestes dias. Grande parte deles ficou por algum tempo sob a convicção de pecados, que os guardou em obediência e os levou à profissão de fé, de modo a escaparem “das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 2.20). Mas por não terem princípios, depois de se habituarem à doutrina do evangelho e de se cansarem da obediência, passaram eles mesmos a justificar as suas múltiplas negligências para com a doutrina da graça. Ora, uma vez tomados por esse mal, caíram rapidamente na perdição.

Quanto aos outros: o segundo desses males exerce nos outros dupla influência maligna, endurecendo-os e fazendo-os crer que estão tão bem quanto os melhores crentes professos. Tudo o que eles voem no não mortificado, está tão contaminado pela falta da mortificação que esta para nada lhes serve. Os crentes não mortificados têm zelo pela religião, mas um zelo em que faltam tolerância e justiça geral; repudiam a prodigalidade, exceto com o mundanismo; separam-se do mundo, mas vivem totalmente para si mesmos, sem a menor preocupação em praticar a misericórdia na terra; ou falam de espiritualidade, e vivem futilmente; mencionam a comunhão com Deus, mas em tudo se conformam ao mundo; gloriam-se do perdão dos pecados, e nunca perdoam ninguém. E ao considerarem essas coisas, as pobres criaturas sem regeneração têm o coração radicalmente endurecido“…
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John Owen – Para Vencer o Pecado e a Tentação, São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 75.