A Igreja e a Excomunhão

[Por: James Bannerman]

“…A frase ‘as chaves do reino dos céus‘, que ocorre na primeira passagem, é paralela ao poder de ‘ligar e desligar‘, de que se fala na segunda; e cada uma dessas duas equivale à autoridade de ‘remitir e reter pecados‘, mencionada na terceira passagem. A expressão ‘o reino dos céus‘, usada na concessão das “chaves” a Pedro, de acordo com o palavreado muito comum do Novo Testamento, deve ser entendida como a igreja visível de Cristo; e o poder das chaves é o poder de abrir ou fechar a porta dessa igreja, no caso das pessoas que buscam admissão ou que merecem exclusão. Exatamente equivalente a esse poder das chaves é a autoridade de ligar e desligar; ou a autoridade de vincular aos homens os seus pecados, de modo que eles sejam afastados da igreja, ou de desligá-los dos seus pecados, de modo que estejam aptos para serem admitidos na igreja. E, nesse mesmo sentido, devemos entender a terceira forma de expressão usada por nosso Senhor para com os representantes da sua Igreja, quando ele lhes concedeu o direito de ‘reter ou remitir pecado’, —linguagem que não deve ser entendida literalmente, como se fosse um poder da parte de Cristo para perdoar a culpa, ou de visitá-la com eterna condenação, investida na sua Igreja, mas deve ser compreendida como a concessão de autoridade à igreja unicamente com referência aos privilégios exteriores e punições da transgressão, que, como sociedade visível, ela tem direito de conceder e de remover. As três passagens em que nosso Senhor concede à igreja esse notável poder devem ser interpretadas em conexão umas com as outras; e embora elas não concedam, quando corretamente entendidas, apoio à ideia de um poder de perdoar pecados ou absolver das suas consequências eternas, elas fornecem uma prova mais do que satisfatória da autoridade que a igreja possui de exercer um poder de disciplina na aplicação e remoção judicial de censuras eclesiásticas para os seus membros.
(…)
O singular caso da pessoa incestuosa da igreja de Corinto é um exemplo da prática apostólica no uso da disciplina judicial; ele fornece um precedente confiável e de autoridade nesse assunto. Na primeira carta dirigida aos crentes da cidade de Corinto, encontramos claramente apresentada a ocasião que demanda esse tipo de exercício de autoridade judicial numa Igreja Cristã, — o objetivo ou finalidade que se deseja alcançar por meio do seu uso, tanto com respeito à pureza da comunhão da igreja quanto com respeito à edificação do ofensor, — e a autoridade para essa conduta, executada em nome de Cristo. E, na segunda epístola a essa mesma igreja, encontramos o apóstolo, com referência a essa mesma pessoa, justificando ou recomendando a sentença da excomunhão que foi aplicada, declarando o efeito benéfico que a punição havia produzido no ofensor, e instruindo a igreja de Corinto nos princípios em que, por causa do seu arrependimento, eles deviam agora absolvê-lo e recebê-lo outra vez na comunhão da igreja. Outro exemplo que chama a atenção sobre a prática dos apóstolos nesse assunto aparece na Primeira Epístola a Timóteo, quando Paulo fala de certas pessoas que haviam ‘naufragado na fé’, e acrescenta o seguinte: ‘dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem’. Mesmo no caso da igreja primitiva, em meio à fornalha da perseguição, foi necessário, pelo exercício da autoridade judicial, expurgar a ofensa e o ofensor, para que a comunidade cristã se mantivesse pura.”…
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James BannermanA Igreja de Cristo – Editora Os Puritanos, posição Kindle 3648 e 3677