Um Alerta Contra a Negligência

[Por: João Crisóstomo]

“…Demos, portanto, graças a Deus, e em nada reprovemos os outros ou incriminemos, mas antes exortemos, oremos por eles, aconselhemos, advirtamos, apesar de nos injuriarem, apesar de recalcitrarem; tais são, de fato, os doentes. Mas os enfermeiros suportam tudo, tudo fazem, mesmo se nada conseguirem, para não pecarem por negligência.

Ignorais que, muitas vezes, quando o médico perde a esperança acerca do doente, um dos parentes assim diz: Continua o tratamento, não omitas coisa alguma para que em nada me incriminem, não me censurem, por não terem motivo de me acusar? Não vedes quantas providências tomam os amigos e parentes em favor dos seus? Quantas coisas fazem, rogando aos médicos, sempre assistindo-os? Ao menos, imitemo-los […].

No caso, porém, de um filho adoecer, o pai não recusaria fazer longa viagem para o curar, mas se a alma vai mal, ninguém se importa. Todos caímos, todos somos preguiçosos, todos descuidados, e nada fazemos, filhos, mulheres e nós próprios, atingidos por tão grave doença. Por fim percebemos a questão. Pensai como é vergonhoso, ridículo dizer depois: Não esperávamos, não julgávamos que ia acontecer. Não somente é vergonhoso, mas também perigoso. Se na presente vida é próprio dos estultos não prever o futuro, muito mais ao se tratar do futuro. Ouvimos agora muitos consultarem e falarem sobre o que se deve fazer, e o que não se deve fazer. Tenhamos esperança a respeito disso, solícitos por nossa salvação, suplicando a Deus que em tudo nos estenda a mão.

Até quando seremos negligentes? Até quando descuidados? Até quando menosprezaremos a nós próprios e a nossos colegas? Ele com abundância derramou em nós a graça do Espírito. Pensemos, portanto, na grande graça que nos concedeu, e empreguemos iguais esforços […]. Se depois, desta graça ficarmos insensíveis, maior e mais grave pena nos ameaça, pois disse ele: “Se eu não tivesse vindo e não lhes tivesse falado, não seriam culpados de pecado; mas agora não têm escusa” (Jo 15,22). Que Deus não diga isso de nós […].”…
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João CrisóstomoPatrística – Comentário às cartas de São Paulo – 3