A Perseguição e o Regozijo Espiritual

[Por: João Calvino]

“…1. Posto que a Escritura nos conforta várias vezes, nas provas e penúrias que experimentamos em defesa de uma causa justa, podemos, portanto, ser acusados de ingratos se não recebermos estas provas, vindas das mãos de Deus, com resignação e regozijo espiritual; principalmente pelo fato de que este tipo de aflição, ou cruz, é própria daqueles que creem.

De acordo com o que disse Pedro, o Senhor Jesus Cristo será glorificado por meio de nosso sofrimento. Como para algumas mentes independentes, um tratamento desdenhoso é mais suportável do que cem mortes, Paulo nos adverte que não é somente perseguição o que nos espera, mas também o ostracismo, porque ‘temos posto nossa esperança no Deus vivo‘.

Em outra passagem o apóstolo nos faz recordar que, seguindo seu exemplo, prossigamos ‘em meio à glória e à desonra, calúnias e da boa fama’.

2. Por outro lado, não nos pede que estejamos alegres enquanto nos move o sentimento de compaixão e amargura. Os santos não poderiam experimentar nenhuma paciência em levar a cruz, a menos que não fossem perturbados pela compaixão e afligidos pelo sofrimento.

Por exemplo, se não há angústia na pobreza, ou agonia na enfermidade, ou dor nos insultos, ou horror na morte, que valor teria o fato de olhar estas aflições com indiferença?

Todavia, posto que cada uma delas, por meio de sua própria amargura, naturalmente humilha nosso coração, os cristãos fiéis mostram sua verdadeira fortaleza resistindo e sobrepondo-se à sua aflição, sem se importarem com o quanto devam se esforçar para consegui-lo.

Estes filhos de Deus serão, pacientes quando forem provocados com fúria, e por temor a Deus, se absterão de responder a esta situação de maneira arrebatada ou irascível. Manifestarão seu regozijo e alegria quando, ao serem feridos e entristecidos pela amargura, descansarem na consolação espiritual de Deus. Ver 1 Pe 4:14; 1 Tm 4:10; 2 Co 6:8,9.”…
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João Calvino A Verdadeira Vida Cristã, Editora Novo Século, São Paulo – p.53-54