Desculpas para o Próprio Pecado

[Por: Agostinho de Hipona]

“…12. Quando, entretanto, tu ouvires: “O pecado não reinará em vós” (Rm 6:12), não confies em ti mesmo, para que o pecado não te domine, mas confies nele, a quem aquele santo disse quando estava orando: “Firma os meus passos na tua palavra, e não me domine iniquidade alguma” (Sl 119:133).

Mas, para que não nos exaltemos quando ouvirmos: “O pecado não terá domínio sobre vós”, nem atribuamos isto à nossa própria força, o Apóstolo acrescentou: “pois não estás debaixo da Lei, e sim da graça” (Rm 6:14). Portanto, a graça é a causa de o pecado não ter poder sobre ti. Assim, não confies em ti mesmo, para que assim o pecado não tenha mais domínio sobre ti.

E quando nós ouvimos: “Se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (Rm 8:13), não podemos jamais atribuir esse bem ao nosso espírito, como se ele, em si mesmo, pudesse fazer essas coisas. E, para que nós não facultemos esse sentimento carnal a um espírito morto antes que mortificador, o Apóstolo fortemente acrescenta: “pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8:14). Assim, quando nosso espírito opera a mortificação das obras da carne, é o Espírito de Deus que age e concede a continência pela qual nós reprimimos, dominamos e vencemos a concupiscência.

13. Nesta magna batalha, o homem que vive sob a graça (e com a ajuda dela luta bem), exulta no Senhor com tremor. Mas, ainda há, nos mais leais combatentes e naqueles que mortificam as obras da carne, algumas chagas do pecado. E, para sanar essas chagas, esses lutadores dizem, cotidianamente: “Perdoa-nos as nossas dívidas” (Mt 6:12).

Contra os vícios e contra o Diabo – príncipe e rei do vício –, eles lutam acirrada e, vigilantemente, mediante muitas orações, de maneira que as sugestões mortíferas do Diabo, com as quais ele incita os pecadores a negarem seus pecados, em vez de assumi-los, não têm poder algum. Sendo assim, aquelas chagas não só não são curadas, mas, embora ainda não mortalmente, esses homens podem ser profunda e fatalmente infectados. É justamente aqui onde necessitamos de uma mais cautelosa continência, pela qual o homem possa coibir seus desejos orgulhosos, ao invés de se passar por inculpável; e, quando pecar, estar convicto de que pecou, aceitando sua própria acusação com saudável humildade, e não procurar desculpas por ruinoso orgulho.

Para coibir tal orgulho, o salmista, cujas palavras eu citei acima e recomendei tanto quanto fui capaz, pediu ao Senhor a continência dizendo: “Põe guarda, Senhor, à minha boca; vigia a porta de meus lábios. Não permitas que meu coração se incline para o mal”. E, para explicar mais claramente por que disse isso, acrescentou: “para a prática da perversidade” (Sl 141:3).

O que, de fato, é mais maligno do que aquelas palavras pelas quais um homem mal nega que é mal, embora completamente convencido de ter realizado uma obra má que ele não pode negar? E, desde que ele não pode ocultar o ato, nem dizer que é um ato bom, nem mesmo negar que o ato foi feito por ele, procura deslocar e se referir a outro ato que tem feito, como se pudesse, com isso, escapar da sanção. Não querendo ser culpado, aumenta a sua culpa; e, por negar e não assumir seus pecados, esquece que o castigo não lhe é removido, e, sim, o perdão. Quando os juízes são homens e podem enganar-se, parece oportuno, pelo menos por um momento, purgar uma culpa por meio de qualquer falácia. Porém, com Deus, que jamais se engana, nós precisamos utilizar, não uma defesa falaciosa, mas uma verdadeira confissão de pecados.”…
___________________________________________________________________
Agostinho de Hipona – A fé e o símbolo | Primeira catequese aos não cristãos | A disciplina cristã | A continência – Editora Paulus, São Paulo – p.119-120