O Falso Senso de Dever Cumprido

[Por: John Owen]

“…Muitas pessoas gostam de frequentar cultos de adoração a Deus. Contudo, esse gosto, em si, não é necessariamente um sinal de verdadeira espiritualidade. Temos que perguntar o que é que causa esse gosto. Então, descobriremos a diferença entre uma verdadeira mudança espiritual e a mera renovação moral do caráter.

Algumas pessoas podem sentir-se grandemente atraídas pela realização exterior do culto — pregação eloquente, música agradável, cerimônia solene (Ezequiel 33:31,32; João 5:35). É certo que é preciso que haja zelo e ordem no culto que realizamos, mas a pessoa que pensa espiritualmente não está interessada só nessas coisas. Na verdade, essa pessoa tem consciência do perigo de que essas coisas sejam uma distração que nos afasta do culto real. Dois homens podem gostar do mesmo jardim: um, por causa do seu colorido e do seu aroma; o outro, por conhecer de perto a natureza e os benefícios do uso das flores e das ervas. A mentalidade espiritual é como este último.

A satisfação derivada de um culto religioso pode provir do sentimento de dever cumprido. Algum conforto pode ser auferido da ideia de que talvez a frequência aos cultos possa diminuir a culpa por pecados cometidos e conhecidos.

Até crentes se portam de maneiras espirituais por reconhecê-las como deveres, porém há diferença entre cumprir um dever para obter algum conforto, e fazê-lo porque com isso se pode conhecer melhor a Deus.

A razão pela qual alguns podem auferir algum conforto da frequência aos cultos, embora não tenham mentalidade espiritual, é que eles acreditam que com isso conseguem crédito perante Deus (Romanos 10:3). Sua ideia de justiça é de algo que eles próprios constroem. A pessoa sente certo prazer resultante de aparentemente contribuir dessa maneira para o seu próprio crédito.

Outros podem auferir prazer do seu comportamento religioso, simplesmente, porque secretamente gostam de ser considerados tipos melhores de pessoas. Pode ser que alguns se orgulhem de serem considerados devotos. Isso pode ser especialmente verdadeiro em todo sistema religioso no qual, na competição entre uns e outros, é pela boa reputação que consegue progresso espiritual.

Finalmente, eu penso que devo insistir em que, no caso de alguns, o prazer pelas observâncias religiosas surge de ideias supersticiosas que podem afetar o pensamento em todas as religiões — tanto falsas como verdadeiras. As pessoas podem usar a religião como uma espécie de seguro contra a possibilidade de lhes sobrevir alguma desgraça, se a negligenciarem. Quase não preciso dizer que nenhuma pessoa que pensa espiritualmente busca conforto do culto por essa razão.”…
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John Owen – O Espírito Santo – São Paulo: Editora PES, 2005 – p. 65-67