O Jejum Particular

[Por: Lewis Bayly]

“…Para podermos realizar um jejum privado, precisamos observar quatro pontos: primeiro: seu autor; segundo: o tempo e a ocasião; terceiro: o modo; quarto: os fins do jejum particular.

A. Sobre o Autor
Quem primeiro ordenou um jejum foi Deus no paraíso, e com ele foi relacionada a primeira lei formulada por Deus, quando ordenou a Adão que se abstivesse de comer o fruto proibido. Deus só pronunciou e escreveu Sua lei com o Seu povo praticando o jejum (
Levítico, capítulo 23), e em Sua lei Ele ordena a todo o Seu povo que jejue. E o que também o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo ensina a todos os Seus discípulos sob o Novo Testamento, assumindo o jejum como prática normalmente aceita (Mat. 6:17; 9:15). Pelo jejum religioso o homem chega perto da vida dos anjos e do cumprimento do que é expresso na Oração do Senhor: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. A verdade é que a própria natureza parece ensinar este dever ao homem, dando-lhe boca pequena e garganta estreita, pois a natureza se contenta com pouco, e a graça se contenta com menos. Em nenhum outro aspecto a natureza e a graça concordam melhor do que no que se refere ao exercício do jejum religioso, pois esta prática traz estes benefícios: fortalece a memória e aclara a mente; ilumina o entendimento e refreia os sentimentos; mortifica a carne, impede doenças e mantém a saúde; livra de males e proporciona toda espécie de bênçãos.

Pela quebra deste jejum, Adão foi derrotado pela serpente perdeu o Paraíso. Mas, por observar o jejum, o segundo Adão serpente e nos restaurou no céu. Foi o jejum que, na arca, cobriu de segurança Noé, que a intemperança descobriu, e o largou na vinha. Pelo jejum Ló apagou as chamas libidinosas de Sodoma, que a bebida reacendeu com o fogo do incesto. O jejum religioso e a conversação com Deus fizeram o rosto de Moisés brilhar diante dos homens, ao passo que o comer e o beber idolátricos fizeram os israelitas parecerem abomináveis à vista de Deus. A prática do jejum arrebatou Elias numa carruagem angelical para o céu, ao passo que o voluptuoso Acabe foi enviado num carro de sangue para o inferno. O jejum fez Herodes acreditar que João Batista viveria após a morte graças a uma bem-aventurada ressurreição, ao passo que, depois de uma vida de costumes inveterados, esse rei nada pôde prometer a si mesmo senão a morte eterna, a destruição eterna. Ó divina ordenança de um divino autor!

B. Sobre o Tempo e a Ocasião
As Escrituras Sagradas, sob o Novo Testamento, não determinam o tempo, deixando à livre escolha dos cristãos (
Rom. 14:3; 1 Cor. 7:5) as ocasiões de jejuar, conforme se lhes ofereçam (Mat. 9:15). Há ocasiões propícias como as seguintes: quando a pessoa busca Deus humilde e ardorosamente, para rogar-Lhe perdão por algum grave pecado cometido; quando alguém sente a necessidade de prevenir-se quanto a algum pecado pelo qual se sente seduzido por satanás; quando deseja obter alguma bênção especial de que carece; quando deseja impedir que lhe sobrevenha algum juízo, como teme, ou desviar o juízo que já tenha caído sobre ele ou sobre outros de quem cuida; finalmente, para sujeitar sua carne a seu espírito, para poder derramar com maior prazer sua alma perante Deus pela oração. Em tais ocasiões a pessoa pode jejuar um dia ou mais, conforme o requeiram a situação e sua constituição, e quando as atividades necessárias o permitam, (Lev 23:32 ;Jos. 7:6; Est. 4:16).

C. Sobre o Modo como Jejuar em Particular
A verdadeira maneira de realizar um jejum parte em parte, de atos externos e, em parte, de atos internos.

Os atos externos são a abstenção, durante o período em que jejuarmos, destas atividades:

Primeiro, de todos os labores e ocupações próprios deste mundo, fazendo do nosso dia de jejum como que um dia de Sabbath (Lev. 23:28,36; Joel 1:14; 2:15), pois as atividades mundanas distrairão as nossas mentes, prejudicando a nossa santa vocação.

Segundo, de todo tipo de alimento, seja comida ou água, quanto as condições de saúde o permitam (2 Sam. 3:35; Esd. 10:6; Dan. 10:3; Est. 4:16; At. 9:9).

Objetivos:
1.
Para que dessa forma reconheçamos a nossa indignidade pessoal, como indignos da vida e dos meios para a sua manutenção.
2. Para que, afligindo o corpo, a alma, que segue a constituição dele, seja levada a maior humilhação.
3. Para que possamos vingar-nos de nós mesmos por abusarmos da nossa liberdade no uso abusivo das criaturas de Deus (
2 Cor. 7:11).
4. Para que, deixando famintos os nossos corpos por negar-lhes estas coisas terrenas, as nossas almas aprendam a ter mais fome e avidez do alimento espiritual e celestial.
5. Para que fixemos em nossas mentes esta válida exortação: assim como nos abstemos de alimento lícito, assim devemos, muito mais, abster-nos do pecado, que é totalmente ilícito.

Terceiro, de vestuário fino e caro (Êx. 33:5,6) para que, corno o abuso nessa área nos faz inflar de orgulho, a renunciado do seu uso lícito testifique a nossa humildade. Com essa finalidade, em dias antigos, principalmente nos jejuns públicos, os crentes fiéis costumavam vestir roupa de pano de saco ou de outro tecido rústico (Est. 4:1,2; Jon. 3:5,6; Joel 1:13; Mat. 11:21). Essa atitude ainda é válida, lembrando que, especialmente, durante os jejuns públicos, vindo à reunião com fitas engomadas, cabelo frisado, vestes provocantes, enfeites com flores e recendendo perfumes, a pessoa mostra claramente uma alma que não é humilde perante Deus e jamais soube qual é o verdadeiro uso de um tão santo exercício.

Quarto, da medida completa do sono normal (2 Sam. 12:16; Joel 1:13; Est. 4:3), para que também dessa forma você possa humilhar o seu corpo; e para que a sua alma vigie e ore, para estar preparada para a vinda de Cristo. E se você costuma interromper ou vetar seu sono cedo de manhã e tarde da noite para obter ganho de coisas deste mundo, quanto mais deve fazê-lo para o serviço de Deus! Se Acabe, imitando os piedosos, jejuou vestido de pano de saco e cortou seu sono de noite (1 Reis 21:27), que é que vamos pensar daqueles que num dia de jejum se rendem ao sono abertamente na igreja?

Quinto e último, dos prazeres externos dos nossos sentidos, de modo que, como não foi só a nossa garganta que pecou, assim não seja punida só a garganta. Por isso devemos esforçar-nos para fazer com que os nossos olhos, o tempo todo, mas especialmente nesse dia, jejuem da contemplação das vaidades, os nossos ouvidos de ouvir vozes de alegria e música, mas, antes, ouçam vozes e cânticos que nos incentivem a prantear; que as nossas narinas jejuem dos aromas agradáveis, nossas línguas de mentir, fingir e caluniar para que, assim, nada impeça a nossa verdadeira humilhação, mas, todos esses fatos e aspectos sejam sinais de que nos humilhamos realmente, sem fingimento. Assim se dá com grande parte do modo externo de jejuar.

O modo interno consiste de dois fatos ou aspectos:
(a) Arrependimento;
(b) Oração.

(a) O arrependimento se compõe de duas partes:

(1) Penitência ou profunda tristeza pelos pecados passados;
(2) Correção da vida com vistas ao futuro.

A penitência consiste de três atos internos: Primeiro, percepção intima do seu pecado, e um senso de sua miséria pessoal; Segundo, um triste lamento por seu vil estado; Terceiro, a humilde e particular confissão de todos os seus pecados conhecidos.”…
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Lewis Bayly – The practice of piety (A Prática da Piedade. São Paulo: Editora PES, 2010. p. 287-292)