A Salmodia como Arma para a Santidade

[Por: João Crisóstomo]

Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo.” [Romanos 15:13]

“…Salmodia com a boca e instrua-se a mente. Não é coisa desprezível. Se ensinamos a língua a cantar, enquanto canta, causará vergonha à alma que buscar o oposto. Não recolheremos apenas este bem, mas também conheceremos muitas coisas úteis, porque o salmista fala acerca do presente e do futuro, da criação visível e invisível.

Se queres saber algo a respeito do céu, se permanecerá estável ou será mudado, ele te responderá claramente: “Os céus ficam gastos como a roupa, tu os mudarás como veste, eles ficarão mudados”, ó Deus (Sl 102:26).

Se queres ouvir falar de sua forma, escutarás: “Estendendo os céus como tenda”. Se quiser alguém saber mais sobre seu dorso, dirá ainda: “Construindo sobre as águas tuas altas moradas” (Sl 104:2-3). Não se detém, mas disserta também acerca da latitude e da altitude, expondo que são iguais: “Como o Oriente está longe do Ocidente, ele afasta de nós as nossas transgressões. Como o céu que se alteia sobre a terra, é forte a sua misericórdia por aqueles que o temem” (Sl 103:12.11).

Se quiser perscrutar igualmente os fundamentos da terra, nem eles te ficarão ocultos, mas ouvi-lo-ás a salmodiar e dizer: “Fundou-a sobre os mares” (Sl 24:2).

Se queres saber donde se originam os terremotos, livrar-te-á de qualquer dúvida, assim se exprimindo: “Ele olha a terra e ela estremece” (Sl 104:32). Se interrogas qual a utilidade da noite, aprenderás dele: “Nela rondam todas as feras da selva” (Sl 104:20). Se queres saber a utilidade dos montes, responder-te-á: “As altas montanhas são para os cervos”. E para que as pedras, responderá: “Os rochedos um refúgio para os ouriços e as lebres”(Sl 104:18). Para qual finalidade as árvores infrutíferas? Aprende: “Ali os pássaros se aninham” (Sl 104:17). Para que fontes no deserto? “Junto a elas as aves do céu se abrigam e todas as feras do campo” (Sl 104:12). Para que o vinho? Não só para beberes, pois para tanto bastava as propriedades da água, mas para te tornar alegre e jovial: “E o vinho, que alegra o coração do homem” (Sl 104:15). Assim instruído, conhecerás até que ponto deverás usar o vinho. De onde se alimentam as aves e as feras do campo? Ouvi-lo-ás dizer: “Eles todos esperam de ti que a seu tempo lhes dês o alimento” (Sl 104:27). Se disseres: E o rebanho? Responderá que eles também foram feitos por tua causa. “Fazes brotar relva para o rebanho e plantas úteis ao homem” (Sl 104:14). Qual a utilidade da lua? Escuta-o: “Ele fez a lua para marcar os tempos” (Sl 104:19). E claramente ensina que fez todas as coisas, visíveis ou invisíveis, dizendo: “Ele disse e tudo foi feito; ele ordenou e tudo existiu” (Sl 33:9). E ele te ensina que haverá solução até para a morte, dizendo: “Mas Deus resgatará a minha vida das garras do Cheol, tomando-me consigo” (Sl 49:15). De onde nos veio o corpo? Ele o diz: “Ele se lembra de que somos pó” (Sl 103:14). Para onde irá finalmente? “Voltam ao pó donde saíram” (Sl 104:29). Por que tudo isto? Por tua causa. “Coroando-o de glória e beleza, para que domine as obras de tuas mãos” (Sl 8:6). E nós homens, o que temos de comum com os anjos? E responde salmodiando: “E o fizeste pouco menos do que um anjo” (Sl 8:5). A respeito do amor de Deus: “Como um pai é compassivo com seus filhos, o Senhor é compassivo com aqueles que o temem” (Sl 103:13). Das condições que nos serão oferecidas depois destas, e a respeito daquela sorte tranquila: “Volta ao repouso, ó minha vida!” (Sl 115:7). Por que o céu é tão imenso? Dirá o seguinte: “Os céus contam a glória de Deus” (Sl 19:1). E por que foram feitos o dia e a noite? Não foi para que brilhe o dia, e a noite somente ofereça o repouso, mas para nossa instrução: “Não são palavras, nem são discursos, cujo sentido não se perceba” (Sl 19:3). Por que o mar circunda a terra: “Cobriste-a com o abismo, como um manto” (Sl 104:6); assim se acha no texto hebraico.

Iniciando por aquilo que foi dito, podereis aprender muitas outras coisas nos salmos: a doutrina a respeito de Cristo, da ressurreição, da vida futura, do repouso, do castigo, da ética, da dogmática, e encontrareis o livro repleto de incontáveis bens.

Se tiveres tentações, retirarás daí muitos consolos; se caíres em pecados, acharás inúmeros remédios; se na pobreza, nas tribulações, verás muitos portos; se fores justo, lucrarás grande segurança; se pecador, muita consolação. Se fores justo, e sofreres males graves, ouvi-lo-ás dizer: “É por tua causa que nos matam todo o dia, e nos tratam como ovelhas de corte”. “Aconteceu-nos tudo isso, e não te esquecemos” (Sl 44:22,17). Se teus feitos te exaltam, ouvirás: “Não entres em julgamento com teu servo, pois diante de ti nenhum vivente é justo” (Sl 143:2), e logo te tornarás humilde. Se és pecador, e desesperas de ti mesmo, ouvi-lo-ás frequentemente cantar: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz! Não endureçais os vossos corações como em Meriba” (Sl 95:7-8) e logo te reerguerás. Se tiveres o diadema na cabeça, e te orgulhares, aprenderás: “Nenhum rei se salva com exército numeroso, o valente não se livra pela sua grande força” (Sl 33:16), e poderás ser comedido. Se és rico e glorioso, de novo escutá-lo-ás a salmodiar: “Ai dos que confiam em seus bens e se vangloriam de sua imensa riqueza” (Sl 49:6); e: “O homem!… seus dias são como a relva: ele floresce como a flor do campo” (Sl 103:15); e: “Sua glória não descerá com ele” (Sl 49:17), e nada considerarás grandioso na terra. Pois, sendo tão vis na terra coisas por demais esplêndidas, glória e poder, o que é digno de estima? Estás vivendo na tristeza? Escuta-o: “Por que te entristeces, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, eu ainda o louvarei” (Sl 42:12). Mas vês alguns desprovidos de mérito se tornarem célebres? Dize: “Não te irrites por causa dos maus, pois são como a erva, secam depressa, eles murcham como a verde relva” (Sl 37:1-2). Verificaste que justos e injustos foram castigados? Escuta que não é por idêntico motivo, pois diz a Escritura: “São muitos os tormentos do ímpio” (Sl 32:10). A respeito dos justos não disse: Tormentos, e sim: “Os males do justo são muitos, mas de todos eles o Senhor o liberta” (Sl 34:19), e ainda: “O mal causa a morte do ímpio” (Sl 34:21) e: “É valiosa aos olhos do Senhor a morte de seus santos” (Sl 116:15).

Repete isto com frequência, e serás instruído. Cada uma dessas palavras encerra um mar imenso de sentidos. Nós, de fato, passamos por alto; se, porém, quiseres examinar os dizeres com maior apuro, descobrirás grande riqueza. Nesse ínterim, as palavras puderam reprimir muitos atos maus iminentes. Uma vez que não permitem inveja, nem dor e tristeza inoportunas, nem que dês tamanha importância às riquezas, às tribulações, à pobreza, à própria vida, livram-te de todas as paixões. Por tudo isso demos graças a Deus, e tratemos este tesouro de forma que: “Pela paciência e consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos a esperança” (Rm 15:4), e gozemos dos bens futuros.”…
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João Crisóstomo Patrística – Comentário às cartas de São Paulo – 1 – Editora Paulus, São Paulo – p. 269-271