Fugi da Fornicação

[Por: João Calvino]

Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo.
Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” [1 Coríntios 11:18-19]

“…Fugi da fornicação. Todo pecado etc.

Uma vez havendo tratado da probidade da conduta, Paulo agora mostra como devemos olhar para a fornicação com o mais extremo horror, tendo em mente quão desditosa e imunda ela é. Ele se estende sobre o assunto, fazendo comparação entre ela e todos os demais pecados, porque, de todos os pecados, este é o único que mancha o corpo com estigma de desgraça. Naturalmente que o corpo é também maculado pelo roubo, pelo homicídio e pela embriaguez, em concordância com estes textos e outros similares: “Vossas mãos estão manchadas de sangue” [Is 1:15]; “Assim como oferecestes vossos membros como instrumentos da iniquidade” [Rm 6:19]. Por causa disso, e a fim de evitar essa confusão, alguns entendem as palavras “seu próprio corpo” como uma referência a nós que estamos unidos a Cristo. Quanto a mim, porém, isso parece mais engenhoso do que exato. Além disso, nem assim eles escapam do problema, porque a mesma coisa pode se dizer tanto da idolatria quanto da fornicação. Pois aquele que se prostra diante de um ídolo peca contra a união com Cristo. Portanto, minha explicação é que ele não nega completamente que há outros pecados, os quais também atraem desgraça e desonra sobre nossos corpos, a mesma mácula repugnante que causa a fornicação. Naturalmente que minhas mãos se mancham pelo roubo ou pelo homicídio; minha língua, pela calúnia ou pelo perjúrio; meu corpo todo, pela embriaguez; mas a fornicação deixa em nosso corpo um estigma tão indelevelmente impresso, como nenhum outro pecado pode fazê-lo. Em concordância com esta comparação, ou, em outros termos, no sentido de menos ou mais, diz-se que outros pecados são fora do corpo; porém não significa como se não afetassem absolutamente o corpo, tomando cada um de per si.

Ou não sabeis que vosso corpo.

Paulo usa mais dois argumentos que provam que devemos abster-nos dessa imundícia. O primeiro é que “nossos corpos são templos do Espírito”; e o segundo é que não vivemos sob nossa própria jurisdição, visto que o Senhor nos adquiriu para si como sua propriedade particular. Há uma ênfase implícita no uso do termo templo, pois, visto que o Espírito de Deus não pode permanecer num ambiente impuro, só nos tornamos sua moradia quando nos consagramos como seus templos [Sl 132:14]. Que grande honra Deus nos confere em querer habitar em nós! Portanto, devemos viver em pleno temor a fim de não o expulsarmos, e ele, por sua vez, nos abandone, irado com nossos atos sacrílegos.

E que não sois de vós mesmos.

Este é o segundo argumento, a saber: que não estamos a nossa própria disposição, vivendo segundo nosso bel-prazer. A razão que ele apresenta em prol desse fato é que o Senhor já pagou o preço de nossa redenção, e nos adquiriu para ele mesmo. Paulo, em termos similares, diz em Romanos 14:9: “Porque foi para isto que Cristo morreu e ressuscitou, para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos.
Ora, a palavra preço pode ser considerada de duas formas: ou simplesmente entendê-la num sentido literal, quando comumente falamos de algo como tendo “um preço”, quando desejamos deixar bem claro que não o obtemos de graça; ou quando usamos, em vez do advérbio τιμίως, “alto custo”, “muito caro”, quando costumamos descrever as coisas que nos custam um valor muito alto. Em minha opinião, não há dúvida de que o segundo é mais satisfatório. Pedro escreve em termos similares: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados de vossa vã maneira de viver. Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” [1Pe 1:18-19]. A suma de tudo isso é: que a redenção nos mantenha sob limites, e com um freio de obediência restrinja a licenciosidade de nossa carne.”…
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João Calvino – Comentários 1 Coríntios (Cap.6)São Paulo. Editora Fiel, p.204-205
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