Os Requisitos para Escolha do Magistrado Civil

[Por: Matthew Henry]

Quando entrares na terra que te dá o Senhor teu Deus, e a possuíres, e nela habitares, e disseres: Porei sobre mim um rei, assim como têm todas as nações que estão em redor de mim; Porás certamente sobre ti como rei aquele que escolher o Senhor teu Deus; dentre teus irmãos porás rei sobre ti; não poderás pôr homem estranho sobre ti, que não seja de teus irmãos. Porém ele não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos; pois o Senhor vos tem dito: Nunca mais voltareis por este caminho. Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração não se desvie; nem prata nem ouro multiplicará muito para si. Será também que, quando se assentar sobre o trono do seu reino, então escreverá para si num livro, um traslado desta lei, do original que está diante dos sacerdotes levitas. E o terá consigo, e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor seu Deus, para guardar todas as palavras desta lei, e estes estatutos, para cumpri-los; Para que o seu coração não se levante sobre os seus irmãos, e não se aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda; para que prolongue os seus dias no seu reino, ele e seus filhos no meio de Israel.” [Deuteronômio 17:14-20]

“…I. Aos eleitores do império, quanto às regras que eles deveriam seguir ao fazer a sua escolha, versos 14,15.

1. Supõe-se, aqui, que o povo, no decorrer do tempo, desejaria um rei, cuja pompa e poder reais seriam de tal forma pensada para que fizesse sua nação parecer grandiosa entre seus vizinhos. O fato de terem um rei não é prometido como misericórdia, nem ordenado como dever (nada poderia ser melhor para eles do que o regime divino sob o qual estavam), mas lhes era permitido, se assim o desejassem. Se eles apenas tivessem o cuidado de garantir que os fins do governo fossem alcançados, e as leis de Deus devidamente observadas e colocadas em execução, eles não deveriam estar presos a qualquer forma de governo, sendo uma possibilidade aprazível o ter um rei. Embora pareça que alguma coisa irregular seja o princípio do desejo, para que pudessem ser como as nações (embora Deus em muitos aspectos os distinguisse das nações), contudo, Deus lhes os entregaria um rei, porque Ele pretendia servir a seus próprios propósitos com isto, ao tornar o governo real um tipo do reino do Messias.

2. Eles são direcionados em sua escolha. Se eles terão um rei sobre eles, como Deus previu que ocorreria (embora não pareça que nem mesmo o pedido tivesse sido realizado antes de aproximadamente 400 anos após o que está escrito nestes versos), então eles devem:

(1) Pedir conselho da boca de Deus, e fazer rei àquele a quem Deus escolher. E era uma felicidade para eles o ter um oráculo para consultar em um assunto tão denso, e um Deus para escolher por eles, Aquele que conhece, infalivelmente, o que todo homem é e será. Os reis são vice-regentes de Deus, e, portanto, é adequado que Ele faça a escolha deles: o próprio Deus havia sido, de um modo particular, o Rei de Israel; e se os israelitas pusessem outro governante acima deles mesmos, e sob Deus, era necessário que Ele nomeasse esta pessoa. De igual modo, quando o povo desejou um rei, eles se dirigiram a Samuel, um profeta do Senhor; e posteriormente, Davi, Salomão, Jeroboão, Jeú, e outros foram escolhidos pelos profetas. E os homens são reprovados quando não observam esta lei, Oséias 8.4: “Eles fizeram reis, mas não por mim“. Em todos os casos a escolha de Deus, se nós a pudermos saber, deve direcionar, determinar e sobrepujar a nossa.

(2) Eles não devem escolher um estrangeiro, com a pretensão de fortalecer suas alianças, ou devido à extraordinária aptidão de tal pessoa, para que um rei estrangeiro não introduza costumes estranhos, contrários àqueles que foram estabelecidos pela lei divina. Mas, este rei deve ser alguém de entre os irmãos, para que seja um tipo de Cristo, que é osso de nossos ossos, Hebreus 2.14.


II. São dadas, aqui, leis para o príncipe que deve ser eleito, visando a devida administração do governo.

1. Ele deveria evitar cuidadosamente todas as coisas que pudessem desviá-lo de Deus e da religião. Riquezas, honras e prazeres são os três grandes obstáculos à piedade (“a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida”), especialmente para aqueles que estão em posições elevadas: contra estas coisas, portanto, o rei aqui é advertido.

(1) Ele não deve satisfazer o amor pela honra por meio da multiplicação de cavalos, verso 16. Aquele que monta um cavalo (uma criatura imponente) em um país em que jumentos e mulas eram utilizados comumente pareceria muito grandioso. E, portanto, embora fosse permitido o ter cavalos para usar como montaria própria, e carros, ainda assim, eles não deveriam colocar seus servos a cavalo (Eclesiastes 10.7), nem ter muitos cavalos para seus oficiais e guardas (quando Deus era o Rei deles, seus juízes cavalgavam jumentos, Juízes 5.10; 12.14), nem poderiam multiplicar cavalos para a guerra, para que sua confiança não se firmasse neles, Salmos 20.7; 33.17; Oséias 14.3. A razão aqui apresentada contra a multiplicação de cavalos é que levaria a uma maior correspondência com o Egito (nação que equipava Canaã com seus cavalos, 1 Reis 10.28,29); e este contato seria maior do que o adequado que o Israel de Deus tivesse após serem tirados de lá por um braço forte: Nunca mais voltareis por este caminho, devido ao perigo de serem infectados com as idolatrias do Egito (Lv 18.3), às quais eles eram muito propensos. Note que devemos evitar o comércio ou a convivência que trazem riscos de sermos levados ao pecado. Se Israel não deve retornar ao Egito, não deve, também, ter relações comerciais com o Egito; Salomão não conseguiu nenhum bem com isto.

(2) Ele não deve satisfazer o amor pelo prazer por meio da multiplicação de mulheres, verso 17 — como Salomão fez para a sua ruína (1 Reis 11.1) — de forma que o seu coração, ao se colocar inteiramente nelas, não se afaste dos negócios e de tudo o que é sério, especialmente do exercício da piedade e da devoção, para os quais nada é um inimigo maior do que a indulgência da carne.

(3) Ele não deve satisfazer o amor pelas riquezas multiplicando grandemente a prata e ouro. Um tesouro considerável lhe é permitido, e ele não está proibido de ser um bom administrador de tais riquezas, mas:

[1] Ele não deve multiplicar imensamente o dinheiro, de modo a oprimir o seu povo (como Salomão parece ter feito, 1 Reis 12.4), nem a ponto de enganar a si mesmo, confiando em seu tesouro e colocando nele o coração, Salmos 62.10.

[2] Ele não deve multiplicá-lo para si mesmo. Davi multiplicou prata e ouro, mas o fez a serviço de Deus (1 Cr 29.4), e não para si mesmo; para o seu povo, e não para a própria família.

2. Ele deve, cuidadosamente, dedicar-se à lei de Deus, e fazer dela a sua lei. Ela deve ser para ele um bem mais precioso do que todas as riquezas, honras, e prazeres, mais do que muitos cavalos ou muitas mulheres, mais do que milhares de objetos de ouro e prata.

(1) Ele deve escrever para si mesmo uma cópia da lei, diretamente do original que estava sob a custódia dos sacerdotes que serviam no santuário, verso 18. Alguns sugerem que ele deveria escrever somente este livro de Deuteronômio, que é um resumo da lei, e cujos preceitos, que são principalmente morais e judiciais, diziam mais respeito ao rei do que as leis presentes nos livros de Levítico e Números, que, sendo cerimoniais, diziam respeito, principalmente, aos sacerdotes. Outros pensam que ele deveria transcrever todos os cinco livros escritos por Moisés, que são chamados de lei, e que, preservados juntos, formam o fundamento da sua religião. Observe:

[1] Embora se possa presumir que o rei tivesse cópias muito boas de seus ancestrais, ainda assim, além destas, ele deveria ter sua própria: era de se supor que as cópias dos antecessores estariam gastas devido ao seu uso incessante. Ele deveria ter uma nova para começar seu serviço ao Senhor.

[2] Apesar de ter secretários ao seu redor, aos quais ele poderia solicitar que escrevessem sua cópia, e que, possivelmente, o fariam com melhor caligrafia que ele, ainda assim, ele deveria fazer a cópia pessoalmente, com a sua própria mão, para a honra da lei, para que ele não julgasse nenhum ato de religião inferior a si, para que se habituasse ao trabalho e estudo, e, principalmente, para que pudesse assim ver-se obrigado a observar minuciosamente cada parte da lei, e, ao escrevê-la, tê-la guardada na mente. Observe que é muito útil, para cada um de nós, escrever o que é influente e edificante a nós das Escrituras, dos bons livros e dos sermões que ouvimos. Uma pena prudente pode ir muito longe, ao compensar as deficiências da memória e fornecer os tesouros do bom pai de família, com coisas novas e velhas.

[3] Ele deve fazer isto imediatamente, ao se assentar no trono do seu reino, se já não o tiver feito. Quando começar a dedicar-se a seus trabalhos, ele deve dedicar-se a este antes de qualquer outro. Aquele que se assenta no trono de um reino não tem outra escolha que não o ter as mãos cheias de tarefas. Os cuidados do seu reino, tanto em sua terra como no exterior, ocupam uma parte considerável do seu tempo e pensamento, e, ainda assim, ele mesmo deve escrever uma cópia da lei. Que os que se intitulam homem de negócios não pensem que sua ocupação os dispensará de tratar dos negócios da religião; e que os homens de alta posição não considerem um demérito o escreverem para si mesmos as grandezas da lei de Deus, que Ele escreveu para eles, Oséias 8.12.

(2) Um rei não deve julgar suficiente o ter uma Bíblia a seu lado, escrita por ele mesmo, mantendo-a em seu gabinete, mas deve lê-la todos os dias de sua vida, verso 19. Não é suficiente ter Bíblias, nós devemos usá-las – e usá-las diariamente – conforme o dever e a necessidade de cada dia requeiram: nossas almas devem ter as constantes refeições deste maná. E, se bem digeridas, será uma verdadeira nutrição e fortalecimento para elas. Assim como o corpo está recebendo benefícios pelo alimento, continuamente, e não somente enquanto está comendo, o mesmo se dá com a alma, pela palavra de Deus, se nela medita de dia e de noite, Salmos 1.2. E nós devemos perseverar na utilização da palavra escrita de Deus, enquanto vivermos. Os estudiosos de Cristo nunca poderão aprender algo superior ao que está contido em suas Bíblias, e haverá nela contínua ocasião de aprendizagem, até que se chegue àquele mundo onde o conhecimento e o amor serão perfeitos.

(3) A sua escrita e leitura não significam nada se elas não resultarem em pratica, versos 19, 20. A palavra de Deus não foi designada meramente para ser uma matéria de especulação e entretenimento, mas sim a regra mandatória de toda prática. Um rei deve conhecer:

[1] Que domínio a sua religião deve ter sobre ele, e a influência que deve exercer sobre si. Em primeiro lugar, ela deve dotá-lo de uma mui reverente e respeitosa estima para com a majestade e autoridade divinas. Ele deve aprender (e, então, os mais instruídos devem permanecer aprendendo sempre) a temer ao Senhor, seu Deus. E, por mais elevado que ele seja, deve sempre se lembrar de que Deus está acima dele, e, qualquer que seja o temor que seus súditos tenham dele, e, ainda, muito mais, ele deve a Deus, como seu Rei. Em segundo lugar, ela deve envolvê-lo em uma constante observância da lei de Deus, e uma obediência consciente a ela, como efeito deste temor. Ele deve guardar todas as palavras desta lei (ele é custos utriusque tabulaeo guardião das duas tábuas), não somente garantir que os outros as obedeçam, mas cumprir, ele mesmo, como um humilde servo do Deus do céu e um bom exemplo para os seus inferiores. Em terceiro lugar, ela o manterá humilde. Por mais que tenha sido promovido, um rei deve conservar o seu espirito humilde, e o temor ao seu Deus deve impedi-lo de desprezar seus irmãos. E que o seu coração não se levante acima deles, de modo a comportar-se arrogantemente e com desdém por eles, pisoteando-os. Que ele não se julgue melhor do que eles, somente, por estar em uma posição mais alta e por ter uma apresentação mais sofisticada. Mas que ele se lembre de que é o ministro de Deus para o bem deles (major singulis, mas minor universesmaior do que todas as partes, mas menor do que o todo). Isto deverá prevenir seus erros, tanto pela mão direita quanto pela esquerda (pois há erros para ambas as mãos) e mantê-lo-á correto, em todas as instâncias, tanto em relação ao seu Deus como em relação ao seu dever.

[2] Que beneficio a sua religião lhe fornecerá. Aqueles que temem a Deus, e guardam os Seus mandamentos, certamente, terão os melhores benefícios deste mundo. O maior monarca do mundo poderá receber mais benefícios por meio da religião do que através de toda riqueza e poder da sua monarquia. Ele terá benefícios, primeiramente, para a sua pessoa: “para que prolongue os seus dias no seu reino”. Nós percebemos na história dos reis de Judá, que, de modo geral, os melhores reinados foram os mais longos, exceto quando Deus os encurtou para punição do povo, como no reinado de Josias. Em segundo lugar, para a sua família: seus filhos também prosperarão. Transmita a religião a sua posteridade e Deus transmitirá uma bênção a ela.”…
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Matthew Henry -Comentário em Deuteronômio 17:14-20
Tradução e revisão: Maycon Maia Ribeiro