A Eleição do Presbítero

[Por: João Calvino]

“…Pergunta-se agora se o ministro deve ser eleito por toda a Igreja, ou apenas por seus colegas e anciãos que presidem as censuras, ou pela autoridade de um só homem. Aqueles que conferem esse direito a um só homem, citam o que Paulo disse a Tito: “Por isso te deixei em Creta, para que constituas presbíteros de cidade em cidade” (Tt 1:5). E igualmente a Timóteo: “A ninguém imponhas as mãos precipitadamente” (1Tm 5:22). Enganam-se, porém, os que acham que Timóteo, em Éfeso, e Tito, em Creta, tenham exercido uma autoridade monárquica, dispondo de todas as coisas a seu bel-prazer.

Porque ambos presidiram às eleições, conduzindo o povo mediante bons e salutares conselhos, mas não com o intuito de decidir o que lhes agradava, excluindo os demais. Demonstrarei isso com um exemplo, para que não pareça fruto de minha imaginação. Lucas, de fato, narra que Paulo e Barnabé constituíram presbíteros nas igrejas, mas explica que isso foi feito por sufrágio ou, como diz o termo grego, mediante a voz do povo (At 14:23). Portanto, os dois escolheram, mas, conforme o costume dos gregos testemunhado pelos historiadores, a multidão toda, erguendo as mãos, indicou a quem queria. De modo semelhante, quando os historiadores romanos dizem que o cônsul instituía novos magistrados, isso não quer dizer outra coisa senão que eles contavam os votos e serviam de moderadores no processo eletivo.

Certamente não se deve pensar que Paulo concedeu a Tito e a Timóteo mais do que ele mesmo recebera. Ora, sabemos que ele costumava instituir os bispos mediante o sufrágio do povo. Portanto, devemos interpretar os textos acima no sentido de que o direito e a liberdade da Igreja não possam ser de modo algum diminuídos. Por isso Cipriano, ao sustentar que o sacerdote deve ser eleito na presença de todos, a fim de ser aprovado como digno e idôneo mediante testemunho e público juízo, diz que esse costume vem de Deus.²⁰ Vemos, de fato, que por ordem do Senhor esse costume foi observado no tempo dos sacerdotes levíticos, que eram apresentados ao povo antes de sua consagração (Lv 8:6; Nm 20:26). Foi desse modo, ante os olhos e a aprovação do povo (At 1:15-26), que Matias foi agregado ao colégio dos apóstolos e os sete diáconos foram instituídos. “Esses exemplos”, diz Cipriano, “demostram que a ordenação do sacerdote deve-se fazer somente com a assistência do povo, a fim de que a ordenação, provada pelo testemunho de todos, seja justa e legítima.

Concluímos, pois, pela Palavra de Deus, ser legítima a vocação dos ministros sempre que homens idôneos são constituídos mediante consentimento e aprovação do povo. De resto, os outros pastores devem presidir às eleições, para que a multidão não proceda por leviandade, conluio ou tumulto.”…

²⁰  Cipriano. Epístola 67,4 (CSEL 3, II, 738, 3ss.).
___________________________________________________________________
João Calvino – A instituição da Religião Cristã – Tomo 2, Capítulo III – Da eleição e ofício dos doutores e ministros da IgrejaEditora Unesp, p. 511-512