Disciplina e Excomunhão Eclesiásticas 1

[Por: François Turretini]

“…I. A terceira parte do poder eclesiástico leva em conta o exercício da disciplina, que consiste no poder espiritual pelo qual os pecadores públicos e escandalosos (em virtude da impureza doutrinal ou da vida, depois que as admoestações privadas e públicas da igreja tenham sido negligenciadas e rejeitadas) são privados dos sinais da graça divina pela ação dos ministros segundo a ordem e autoridade do presbitério. E caso perseverem na mesma contumácia, por fim são declarados, diante de toda a igreja, no nome do Senhor, como excluídos da comunhão da igreja, até que venham a ser reconciliados com Deus e a igreja mediante genuíno e sério arrependimento.

II. A necessidade e equidade desta disciplina (à parte da a respeito da instituição divina) se deduzem da natureza da própria coisa. Pois se nenhuma sociedade (aliás, nenhum a casa) pode ser mantida em estado sólido sem disciplina, é evidente que ela é muito mais necessária na igreja, cujo estado precisa ser muito mais ordeiro.

Como, pois, a doutrina salvífica de Cristo é a alma da igreja, assim a disciplina é como os nervos pelos quais os membros do corpo se harmonizam mutuamente, cada um em seu próprio lugar. Justamente por isso, todos quantos desejam que a disciplina seja suprimida, ou sustar sua restauração ou exercício, esses mesmos buscam a mutilação da igreja. Pois o que sucederia se a cada um fosse permitido fazer o que bem lhe apraz?

A disciplina, pois, é o fundamento da ordem e o vínculo da unidade, o freio pelo qual é
contido e domesticado quem se enfurece contra a doutrina de Cristo, o alvo rumo ao qual o indisposto é estimulado e, por assim dizer, a vara paterna pela qual quem gravemente caiu pode ser disciplinado bondosamente e em conformidade com a mansidão do Espírito de Cristo.

III. Os fins que a igreja tem em vista na disciplina desse gênero são: primeiro, para que, pela afronta feita a Deus, não seja nomeado entre os cristãos quem leve um a vida desditosa e perversa, como se sua santa igreja não passasse de um bando de ímpios e perdidos. Pois, visto ser ela o corpo de Cristo, não pode ser maculada com membros tão pútridos sem que se adira à sua cabeça algum desfavor. É preciso levar em conta também a Ceia do Senhor, para que a mesma não seja profanada mediante um a exibição promíscua.

Segundo, para que, mediante uma associação constante com os perversos (como geralmente é o caso), o bem não seja corrompido. Pois nada é mais fácil do que se deixar desviar do curso reto da vida mediante maus exemplos. Por essa razão, o apóstolo ordena aos coríntios que removam de sua comunhão o incestuoso, porque “um pouco de fermento leveda a massa toda” (1 Co 5:6). E logo adiante: “Vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais” (1 Co 5:11).

Terceiro, para que passe a se envergonhar de sua vileza, e a disciplina de sua perversidade lhe faça bem , e desperte sob o senso da vara quem , ao contrário disso, viria a ser obstinado pelo uso da indulgência.

IV. Aqui se deve observar particularmente que esta disciplina exerce aquele grau de severidade que está sempre associado a um espírito de brandura. Pois devem os cuidar com constante diligência (com o Paulo ordena) para que ela seja aplicada de modo a não esmagar com tristeza, porque então o remédio se converteria em sua destruição. Pois visto que se busca isto em seu exercício – que o pecador seja guiado ao arrependimento e os maus exemplos, removidos; para que ele não considere perversamente o nome de Cristo, ou outros sejam induzidos a imitá-lo -, daí se pode julgar facilmente até onde ir e onde a severidade deve cessar. Pois, quando o ofensor dá à igreja testemunho de seu arrependimento, e por esse testemunho se oblitera o quanto possa o escândalo, ele não deve mais ser pressionado, do contrário, o rigor excede o próprio limite.

Por isso não se pode aprovar a austeridade imoderada dos antigos, a qual era contrária à prescrição de Deus e expunha a grandes riscos. Pois visto que impunham ao pecador o usual arrependimento e a privação da sagrada comunhão, ora por sete, então por quatro anos, e novamente por todo o curso da vida, o que adviria disso senão grande hipocrisia ou o mais profundo desespero? Portanto, para que a espada espiritual não seja desem bainhada por uma causa trivial (como, no caso, acontece por toda parte, entre os anabatistas), mas antes se tentem todos os meios, e só gradualmente se recorram a medidas extremas (i.e., de uma menor a uma maior excomunhão, como outrora os judeus procediam de Niddus a Cherem e então a Maranatha).”…
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François Turretini – Compêndio de Teologia Apologética Vol. 3, p.358-359