Disciplina e Excomunhão Eclesiásticas 2

[Por: François Turretini]

“…V. Este poder de reprovar consiste da dupla chave: fechar e atar, abrir e desatar (com o deduzimos de Mt 16:19). Pela primeira, os obstinados hereges, os perturbadores da paz da igreja, os pecadores escandalosos e incorrigíveis, após uma e outra admoestação, são suspensos do uso dos sacramentos e, caso perseverem em sua contumácia e rebelião, são expulsos da igreja, de modo que não lhes seja lícito unir-se aos crentes no exercício da piedade.

Isso não deve estender-se à sociedade política e aos deveres morais e caritativos simplesmente, ou outras coisas devidas e necessárias de nossa vocação no estado econômico e político, com o querem os romanistas, como se as esposas fossem proibidas a seus esposos, os filhos aos pais, os servos aos senhores, os súditos de renderem obediência aos príncipes excomungados, aos quais se acham sujeitos pela lei da natureza. Pois a excomunhão não pode rom per os laços naturais e morais pelos quais os homens estão mutuamente congraçados.

Antes, esta separação deve estender-se somente àquelas partes do relacionamento que parecem implicar conivência ou aprovação. Pela segunda chave, entretanto, diz-se abrir e soltar aqueles que se arrependem e sinceramente sentem seus pecados, depois de se fazer uma reparação justa de sua ofensa (a qual é chamada de satisfação canônica), para que sejam recebidos outra vez à comunhão da igreja e dos sacramentos.

VI. Além do mais, esta expulsão da igreja deve ser concebida de diferentes maneiras segundo seu duplo estado. Pois, quanto ao estado externo, ela indica um a real separação da comunhão externa da igreja e do uso dos sacramentos, porém não uma separação perpétua, mas por algum tempo, até que se arrependa.

Quanto ao estado interno, não é um a expulsão real do corpo místico de Cristo, pois aquele que um a vez se une a esse corpo nunca mais pode separar-se dele. Antes, constitui apenas uma ameaça ou declaração do demérito intrínseco do culpado (ou seja, que um pecador impenitente e contumaz desse gênero merece ser expulso dessa sociedade segundo a sentença de Deus pronunciada contra tais pecadores, 1 Co 6:9). Consequentemente, ele é merecidamente privado do senso da presença de Deus nesta vida e será privado do desfruto da glória na outra a menos que se arrependa.

Por isso não devemos crer que, mediante a excomunhão, o pecador seja simples e absolutamente decepado do corpo de Cristo, pois ele não cessa de ser membro da igreja em secreto e no tocante ao estado, ainda que, no tocante à disciplina externa, por algum tempo, seja removido da sociedade dos crentes. Como um pai, quando expulsa de casa
um filho contumaz e o priva de sua presença e dos testemunhos do favor paterno, no entanto nem por isso ele o deserda totalmente, nem se despede toda afeição paterna para com ele; aliás, usando então esse remédio para conduzi-lo ao arrependimento, por esse feito exerce seu amor para com ele, ainda que não o reconhecendo então, mais tarde o reconhecerá, quando, mediante genuína conversão, tiver voltado ao favor de seu pai.

E, assim , a excomunhão é a vara de um a mãe piedosa usada em um filho perverso, a quem ela não deixa de considerar seu filho só porque o castiga, mas o castiga severamente para que venha a ser restaurado e não deixe totalmente de ser um filho; não para destruí-lo, mas para curá-lo; não para lançá-lo fora, mas para trazer de volta a si o desencaminhado. Não constitui um obstáculo que Deus diga que ratificará no céu o que for feito na terra, pois ele o ratifica da mesma maneira que foi pronunciado, e essa eliminação nunca é absoluta, mas condicional (com o já foi dito).

VII. Esta é nossa opinião a respeito da disciplina eclesiástica e de seu exercício na excomunhão que prevalece na maioria das igrejas reformadas e evangélicas, e é exercida de maneira proveitosa.”…
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François Turretini – Compêndio de Teologia Apologética Vol. 3, p.359-361