A Rejeição ao Governo Feminino

[Por: João Calvino]

Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.” [1 Timóteo 2:12]

“…Paulo não está falando das mulheres em seu dever de instruir sua família; está apenas excluindo-as do ofício do sacro magistério [a munere docendi], o qual Deus confiou exclusivamente aos homens. Esse é um tema que já introduzimos em relação a 1 Coríntios. Se porventura alguém desafiar esta disposição, citando o caso de Débora [Jz 4.4] e de outras mulheres sobre quem lemos que Deus, em determinado tempo, as designou para governar o povo, a resposta óbvia é que os atos extraordinários de Deus não anulam as regras ordinárias, às quais ele quer que nos sujeitemos. Por conseguinte, se em determinado tempo as mulheres exerceram o ofício de profetisas e mestras, e foram levadas a agir assim pelo Espírito de Deus, Aquele que está acima da lei pode proceder assim; sendo, porém, um caso extraordinário, ⁴⁰ não se conflita com a norma constante e costumeira.

Ele prossegue mencionando algo estritamente relacionado com o ofício do magistério sagrado – nem que exerça autoridade sobre o homem. A razão por que as mulheres são impedidas de ensinar consiste em que tal coisa não é compatível com o seu status, que é serem elas submissas aos homens, quando a função de ensinar subentende autoridade e status superior. É possível que o argumento não aparente força, visto que, pode-se objetar, que mesmo os profetas e mestres são sujeitos aos reis e aos magistrados. Minha resposta é que não há absurdo algum no fato de um homem mandar e ser mandado ao mesmo tempo em relações distintas. Mas, isso não se aplica no caso das mulheres que, por natureza (isto é, pela lei ordinária de Deus), nascem para a obediência, porquanto todos os homens sábios sempre rejeitaram o governo feminino (γυναικοκγρατία), como sendo uma monstruosidade contrária à ordem natural. E assim, para uma mulher usurpar o direito de ensinar seria o mesmo que confundir a terra e o céu. É por isso que ele lhes ordena a permanecerem dentro dos limites de sua condição feminina ⁴¹.”

Notas

⁴⁰  “Pource que e’est un cas particulier et extraordinaire.” — “Porque é um caso peculiar e extraordinário.”
⁴¹ “Il commande done qu’elles demeurent en silence; c’est a dire, qu’elles se contiennent dedans leurs limites, et la condition de leur sexe.” — “Ele, pois, lhes ordena a que ficassem em silêncio; isto é, manter-se dentro de seus limites e da condição de seu sexo.”
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João Calvino – Comentários nas Epístolas Pastorais (1 Timóteo)Editora Fiel, p.67
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