A Confissão Pessoal Não Imuniza Ninguém

[Por: Cipriano de Cartago]

“…Nem ninguém se admire, irmãos caríssimos, terem alguns dentre os confessores se rebaixado a pecar tão vergonhosamente e gravemente. A confissão não imuniza contra as insídias do diabo, nem protege quem ainda está no mundo com definitiva segurança contra as tentações, os perigos, os ataques e as investidas do mundo; não fosse isso, nunca registraríamos entre os confessores as mentiras, as infâmias e os adultérios que agora constatamos em alguns, choramos e lamentamos.

Quem quer que seja o confessor, não há de ser maior, melhor ou mais caro a Deus que Salomão; ele, enquanto marchou nos caminhos do Senhor, obteve a graça que merecera do Senhor; logo, porém, que abandonou o caminho do Senhor, perdeu também sua graça. Por isso está escrito: “Guarda o que tens para que outro não receba tua coroa” [Ap 3:11]. Sem dúvida o Senhor não ameaçaria tirar a coroa da justiça, senão porque, cessando a justiça, esvai-se também a coroa.

A confissão é o princípio da glória e não a consecução da coroa; ela não completa o louvor, apenas inicia a dignidade; assim como está escrito: “Quem perseverar até o fim, este será salvo” [Mt 10:22]. Tudo o que acontece antes do fim, e por que se passa enquanto se sobe ao cimo da salvação, não é o termo no qual já se tem a sumidade do cume.

Chegou-se [porém] à confissão; mas depois da confissão o perigo é maior, pois o adversário foi provocado mais ainda. Chegou-se à confissão; mantenha-se mais ainda no Evangelho do Senhor quem conseguiu a glória do Senhor pelo Evangelho. Diz, de fato, o Senhor: “A quem mais é dado, mais será exigido; a quem é constituído em maior dignidade, mais serviço lhe será exigido” [Lc 12:48].

Que ninguém pereça pelo exemplo de algum confessor, que ninguém aprenda a injustiça, a insolência e a infidelidade com o procedimento de algum confessor. Que o confessor seja humilde e cordato, modesto e disciplinado em suas ações; imite o Cristo que confessa para que seja chamado confessor. Pois se ele ensina que “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”, [Lc 18:14] também ele próprio, palavra, força e sabedoria de Deus Pai, [Cf. 1 Cor 1:24] é exaltado pelo Pai porque se humilhou na terra; se promulgou para nós a lei da humildade e recebeu do Pai, como prêmio da humildade, um magnífico nome, [Cf. Fl 2:6-10] como pode amar a soberba?

[Verdadeiramente] é confessor do Cristo quem, depois da confissão, não admite blasfêmias contra a majestade e a dignidade do Cristo. Não seja maldizente a língua que confessou o Cristo; não seja turbulenta, não seja ouvida na celeuma das injúrias e disputas, nem, velado em palavras elogiosas, lance o veneno da serpente contra os irmãos e os sacerdotes de Deus.

Finalmente, se se tornar de todo culpado e detestável um confessor, se dissipar sua confissão com péssimo comportamento, se macular sua vida com infames indignidades, se, enfim, desprezando a Igreja onde confessou, dividindo o consenso da unidade, trocar pela infidelidade a antiga fé, não poderá se iludir com sua confissão e se julgar eleito para o prêmio da glória, pois, justamente por causa dela, maiores se tornaram os motivos de seus castigos.”…
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Cipriano de Cartago – Obras Completas I (Coleção Patrística). Editora Paulus, p.90-91