A Disciplina Eclesiástica e a Tolerância

[Por: Agostinho de Hipona]

“…De fato, Moisés, o servo de Deus, tolerava com grande paciência aquela mistura do povo, e, mesmo assim, a muitos puniu com a espada. Também Fineias, o sacerdote, transpassou com a lança os flagrados em adultério, [Cf. Nm 25:5-8] o que significa que se deve fazer algo como a degradação [corresponderia à atual reductio ad statum laicalem] ou a excomunhão neste tempo em que, na disciplina da Igreja, cessou a espada visível. E o beato Apóstolo, mesmo em dor, é muito tolerante com os falsos irmãos, [Cf. 2 Cor 11:26] excitados pelos estímulos diabólicos da inveja, e lhes permite anunciar o Cristo [Cf. Fl 1:15-18]. Ele não pensa, porém, em deixar impune aquele que possuiu a mulher de seu próprio pai, e, uma vez reunida a Igreja, ordena-o a abandonar Satanás para a destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus [Cf. 1 Cor 5:1-5]. E esse mesmo Apóstolo abandonou outros a Satanás para que aprendessem a não blasfemar, [Cf. 1 Tm 1:20] e não em vão disse: “em uma carta escrevi que não vos misturásseis com os fornicadores, e não me referia aos fornicadores deste mundo, ou aos avaros, ou aos ladrões, ou aos servidores de ídolos deste mundo, se assim fosse, deveríeis sair deste mundo. Escrevi, sim, que não vos misturásseis com quem se diz irmão, mas é fornicador, servidor de ídolos, avaro, maledicente, ou é ébrio ou ladrão; com estes, não deveis nem sentar-vos à mesa. Por acaso cabe a mim julgar esses de fora? Não são os que estão dentro que vós julgais? Os de fora, Deus os julgará. Afastai o mal de vós!” [1 Cor 5:9-13].

Alguns entendem esse “de vós” como se cada um devesse afastar o mal de si mesmo, isto é, que ele mesmo seja bom. Entenda-se [essa expressão], porém, desse modo ou deste outro: pela severidade da Igreja, sejam os maus punidos com a excomunhão, e que cada um afaste o mal de si através de correções e admoestações. No entanto, não há ambiguidade lá onde manda não misturar-se com aqueles irmãos que são lembrados por alguns dos vícios mencionados acima, ou seja, que são conhecidos por tais vícios.

Ele mostra com qual espírito e com qual caridade deve ser usada esta severidade misericordiosa não só quando diz: “para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus”, [1 Cor 5:5] mas também de modo evidente quando diz: “se alguém não obedece nossa palavra nesta carta, que se tome nota e que ninguém se misture com ele, para que se envergonhe; ele, porém, não seja tido como um inimigo, mas seja corrigido como um irmão” [2 Ts 3:14-15]”…
___________________________________________________________________
Agostinho de Hipona – Sermão da Montanha e Escritos Sobre a Fé – Editora Paulus, São Paulo – p.188