A Inconveniência de Certos Ornamentos

[Por: Cipriano de Cartago]

“…12. O luxo de ornamentos e vestes e a sedução das for​​mas só convêm às prostitutas e às mulheres impudicas, e ordinariamente não há vestes mais preciosas do que as daquelas cujo pudor é vil. Assim, as Sagradas Escrituras, pelas quais o Senhor quis instruir-nos e admoestar-nos, descrevem a cidade meretriz ricamente ornada e ataviada, destinada a perecer com os seus atavios, ou, antes, por causa deles: “E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e se aproximou de mim dizendo: Vem, que te mostrarei a condenação da grande meretriz sentada à beira das grandes águas, com a qual praticaram luxúrias os reis da terra. E conduziu-me em espírito, e vi uma mulher montada numa fera. E a mulher estava revestida de um manto purpúreo e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas, trazendo na mão uma taça de ouro repleta das abominações, da imundície e da fornicação de toda a terra”. [Ap 17:1-4] As castas e modestas virgens fujam do luxo das impuras, do vestuário das impudicas, dos ornatos dos prostíbulos, dos enfeites das meretrizes.

13. Também, Isaías exclama, cheio do Espírito Santo, e repreende as filhas de Sião corrompidas pelo ouro, pela prata e pelas vestes, e censura as que possuem em abundância riquezas perniciosas, afastando-se de Deus pelos prazeres do século: “As filhas de Sião se elevaram e andaram com o pescoço emproado, fazendo aceno com os olhos, arrastando as túnicas com andar afetado, e ao mesmo tempo saltitando. O Senhor humilhará as principais filhas de Sião e lhes arrebatará as vestes. O Senhor tirará a glória das suas vestes e os seus ornamentos, os seus cabelos, os seus cabelos anelados, as lúnulas, as fitas de cabelo, os braceletes, os toucados, as cadeias de ouro, os anéis, os brincos, os vestidos de festa tecidos de ouro e jacinto, e em lugar de cheiro suave, poeira, e por cinta te cingirás de corda e por ornamento áureo da cabeça terás a calvície”. [Is 3:16]

Isto é o que Deus repreende, isto é o que indica: a corrupção delas consiste em todas essas coisas; é isso que ele declara; esse é o motivo de se afastarem do ornato verdadeiro e divino. Exaltadas, decaíram; pelos seus atavios, mereceram ignominiosa fealdade. Cobertas de seda e púrpura, não podem revestir-se do Cristo; adornadas de ouro, pérolas e joias, perderam os ornatos da alma e do coração.

Quem não abominaria e evitaria o que foi ruína para outros? Quem desejaria e tomaria [para si] o que foi para a morte de outras qual espada e seta mortal? Se depois de tomar uma bebida alguém morresse, saberias ser veneno o que bebeu; se, ao ingerir um alimento alguém sucumbisse, saberias ter sido mortal o que, uma vez recebido, pôde tirar a vida; não ousarias comer nem beber daquilo que, antes, viste matar a outros. Portanto, quanta ignorância da verdade, quanta loucura de espírito em querer o que sempre prejudicou e prejudica e julgar que não hás de perecer onde sabes terem outros encontrado a perdição.

14. Deus não fez as ovelhas escarlates ou purpúreas, nem ensinou a tingir e colorir a lã com o suco de ervas e púrpuras. Não ensinou a fabricar joias engastando no ouro pedras preciosas ou pérolas numa sucessão compacta e encadeadas por numerosas ligações, para ocultares a cabeça por ele criada, cobrindo-se o que formou no homem e ostentando-se, por cima, o que o demônio inventou.

Porventura quis Deus que se fizessem incisões nas orelhas e que por meio delas se torturasse a infância inocente e ainda ignorante do mal deste mundo, a fim de que, em seguida, das cicatrizes e orifícios pendessem pedras preciosas, pesadas ainda que não pelo tamanho, mas pelo seu elevado preço?

Os anjos pecadores e apóstatas exibiram tudo isso por seus artifícios, quando, precipitados nos contágios terrestres, se afastaram da força celeste. Eles ensinaram a pintar os olhos contornando-os de preto, a colorir as faces com falso rubor, a metamorfosear a cabeleira por meio de coloridos falsificados e a destruir toda a verdade da boca e da cabeça pelo ataque de sua corrupção.”…
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Cipriano de Cartago – Obras Completas I (Coleção Patrística). Editora Paulus, p.35-36