Divergências e Separação da Igreja

[Por: João Calvino]

“…12. DIVERGÊNCIAS EM PONTOS SECUNDÁRIOS DE DOUTRINA NÃO JUSTIFICAM VIOLAR A UNIDADE DA IGREJA SEPARANDO-SE DELA

Continuamos dizendo que o puro ministério da Palavra, e o puro rito na celebração dos sacramentos, são penhor e garantia idôneos de que podemos, com segurança, abraçar como igreja a sociedade em que subsistam um e outro; isso vale até o ponto em que em nada deve ser rejeitada enquanto ela persistir neles, ainda que, de outra sorte, esteja manchada de muitas falhas. E, ainda mais, poderá insinuar-se algo de vício quer na ministração da doutrina, quer na ministração dos sacramentos, não devemos alienar-nos de sua comunhão. Pois, nem todos os artigos da doutrina verdadeira são de um só molde. Há certos artigos tão necessários de se conhecer que importa sejam a todos fixos e indubitados, como os princípios próprios da religião, quais são: que há um só Deus; que Cristo é Deus e o Filho de Deus; que a salvação se funda na misericórdia de Deus, e semelhantes. Há outros que, controvertidos entre as igrejas, entretanto não quebram a unidade da fé.

Ora, o que dizer de igrejas que entram em desarmonia por causa deste único motivo, a saber, que alguém, pelo prazer de contenda, acredita que as almas migram para os céus deixando imediatamente seus corpos, outra nem mesmo ousa definir quanto a lugar, no entanto afirma categoricamente que elas vivem para o Senhor? São palavras do Apóstolo: “Todos quanto somos perfeitos tenhamos o mesmo sentimento; se algo entendeis de maneira diferente, também isto o Senhor vos haverá de revelar” [Fp 3.15]. Porventura ele não está indicando suficientemente que o dissentimento acerca destas coisas não deve necessariamente ser matéria de separação entre cristãos? Indubitavelmente deve estar em primeiro plano que em todas as coisas estejamos de acordo; mas uma vez que ninguém que não esteja envolto de alguma nuvenzinha de ignorância, ou não admitamos nenhuma igreja, ou perdoemos o engano nessas coisas que podem ser ignoradas sem violar a suma da religião, e que não ponha em risco a salvação.

Aqui, porém, não gostaria de patrocinar a nenhum erro, sequer os mais diminutos, de modo a pensar que devam ser fomentados, agindo com complacência e com conivência. Digo, porém, que não devemos, por causa de algum pequeno desentendimento, abandonar irrefletidamente a Igreja que guarda em sua pureza e perfeição a doutrina principal de nossa salvação e administra os sacramentos como o Senhor os instituiu. Entrementes, se fizermos esforços em corrigir o que desagrada, fazemo-lo por nosso dever. E a isso se inclui a injunção de Paulo: “Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro” [1 Co 14.30]. Do quê se faz evidente que a cada membro da Igreja requer-se o esforço da edificação pública segundo a medida da sua graça, desde que decentemente e em conformidade com a ordem, isto é, de modo que não renunciemos à comunhão da Igreja, nem perturbemos nela a paz e a disciplina devidamente exercitada.”…
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João Calvino – As Institutas da Religião Cristã – Edição Clássica (LIVRO IV – Cap. I), Editora Cultura Cristã, 2003. p.37
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