A Transição Entre as Administrações da Aliança

[Por: Jonathan Edwards]

A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele” (Lucas 16:16)

“…Primeiro: em que consistia a obra e ofício de João Batista, isto é, em pregar o reino de Deus, preparar o caminho para sua introdução como sucessão da lei e dos profetas. Por Lei e Profetas, na passagem, parece se ter em vista a velha dispensação do Antigo Testamento, que foi recebida de Moisés e dos profetas.

É dito que vigoraram até João. Não que as revelações dadas por eles estejam fora de uso desde então, porém a condição da igreja fundada e regulada, sob Deus, por eles, a dispensação da qual eram os ministros e de que a igreja dependia majoritariamente para receber sua luz, continuou plenamente até João. Ele pioneiramente começou a introduzir a dispensação do Novo Testamento, o estado evangélico da igreja, que com suas bênçãos e privilégios gloriosos, espirituais e eternos é frequentemente chamado de reino dos céus, ou reino de Deus. João Batista pregou que o reino de Deus estava próximo. ‘Arrependei-vos, dizia, ‘porque o reino de Deus está próximo. ‘Desde esse tempo’ diz Cristo, “vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus. Primeiro João Batista o pregou, depois Cristo e seus discípulos pregaram o mesmo: ‘Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. (Mt 4:17) Da mesma forma, os discípulos foram instruídos a pregar e a dizer: ‘e, à medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. (Mt 10:7)

Não foi João Batista, mas Cristo quem trouxe plenamente e de fato estabeleceu este reino de Deus. Mas ele, como precursor de Cristo, para preparar o caminho diante dele, fez a primeira coisa feita em direção a sua inauguração. A antiga dispensação foi abolida e a nova trazida gradualmente, como a noite progressivamente cessa, dando lugar ao crescente dia que a sucede. Primeiro, surge a estrela da manhã. Depois, segue-se a luz do sol, mas, a princípio, foscamente refletida no amanhecer do dia. Mas essa luz fica mais forte e brilha mais e mais, e as estrelas que serviam para a luz durante a noite precedente gradualmente se apagam, e suas luzes cessam, sendo agora desnecessárias até que, afinal, o sol surge e ilumina o mundo por sua própria luz direta, que fica mais forte à medida que sobe no horizonte, até que a própria estrela da manhã gradualmente desaparece. Isso condiz com o que João fala de si próprio em Jo 3:30: ‘Convém que ele cresça e que eu diminua. João foi o precursor de Cristo e o arauto da luz do evangelho, do mesmo modo que a estrela da manhã é a precursora do sol. Ele teve o mais honroso ofício que quaisquer dos profetas. Os outros previram a vinda de Cristo, João o revelou como já vindo e teve a honra de ser o servo que veio imediatamente antes dele, e de fato o introduziu e foi mesmo o instrumento relacionado à sua solene inauguração, ao batizá-lo. Foi o maior dos profetas que veio antes de Cristo, assim como a estrela da manhã é a mais brilhante (Mt 11:11). Veio para preparar os corações dos homens para receber esse reino de Deus que Cristo estava prestes a revelar e erigir mais plenamente: ‘e habilitar para o Senhor um povo preparado (Lc 1:17).

Segundo: podemos observar em que consistiu seu sucesso, isto é, no fato de que, desde que iniciou seu ministério, todo homem se esforçava pelo reino de Deus que ele pregava. A grandeza do seu sucesso aparecia em duas coisas:

1. Na generalidade dele com respeito aos objetos ou às pessoas em quem o sucesso se mostrava: todo homem. Esse é um termo de universalidade, mas não pode ser tomado como universal com respeito aos indivíduos, mas aos tipos, da mesma forma como esses termos universais são usados com frequência nas Escrituras. Quando João apareceu, houve um espantoso derramamento do Espírito Santo acompanhando sua pregação. Um despertamento incomum e uma preocupação com a salvação aparecia na mente de todos os tipos de pessoas, mesmo nas mais improváveis e naquelas de quem menos se esperaria tal coisa. Por exemplo, os fariseus, que eram excessivamente orgulhosos e autossuficientes, convencidos de sua própria sabedoria e justiça, que se encaravam como mestres e desprezavam que os ensinassem. E os saduceus, uma súcia de infiéis que negavam a ressurreição, anjos, espíritos, ou qualquer estado futuro. De modo que o próprio João parece surpreso em vê-los virem a ele, com tamanha preocupação por sua salvação, como em Mateus 3:7: ‘Vendo ele, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? E, além desses, os publicanos, que eram dos tipos mais infames, vinham a ele inquirindo acerca do que deviam fazer para ser salvos. E os soldados que sem dúvida eram pessoas profanas, libertinas e dissolutas, faziam o mesmo questionamento: ‘Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? (Lc 3:12) ‘Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo. (Lc 3:14)

2. Seu sucesso aparecia na maneira em que seus ouvintes buscavam o reino de Deus: esforçavam-se por ele. Em outro lugar (Mt 11:12) é dito que eram violentos pelo reino dos céus, e o tomavam pela força. ‘E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao Reino dos céus, e pela força se apoderam dele.”…
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Jonathan Edwards – Sermão em Lucas 16:16
Fonte: Projeto Jonathan Edwards
Tradução: Tiago Cunha