Votar no Dia do Senhor é um Ato Imoral

Por Felipe Parreira de Faria Borges

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Sumário

1   Breve Introdução do Argumento Geral
2   Votar em dia de sábado é um ato imoral
     2.1   O sábado é um mandamento moral
     2.2   O sábado continua no Novo Testamento e foi alterado para o primeiro dia
              da semana
     2.3    As obras de necessidade
     2.4    As obras de misericórdia
     2.5    Conclusão

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1   Breve Introdução do Argumento Geral

A cada quatro anos, o povo brasileiro vai às urnas escolher seus representantes políticos, baseados em um sistema democrático constitucional, nos níveis federal e estadual. Boa parte dos cristãos também se dirige a este ritual cívico, crendo ser essa uma obrigação moral e civil, e o fazem com uma boa consciência diante de Deus e dos homens certos de que, se não fazem nada de virtuoso, ao menos evitam vicissitudes e incômodos desnecessários como cidadãos e não pecam contra Deus. Contudo, parece que, entre nós, esse ato nunca foi feito um caso de consciência com o objetivo de ser escrutinado à luz da Escritura Sagrada, a fim de ser aprovado ou rejeitado pela lei divina, a qual deve guiar fundamentalmente a conduta do cristão; pois, como diz o profeta,“[à] lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles”(Is. 8:20).

Embora desconhecida da maioria dos cristãos brasileiros (especialmente nos círculos reformados e presbiterianos), há uma longa tradição entre os presbiterianos escoceses/irlandeses 1 que imigraram para os EUA, de se recusarem não só a votar, mas também de assumir cargos públicos, entrar nas forças armadas ou até servir como jurado nos tribunais. Essa tradição, porém, é muito mais ampla e católica 2, pois se fundamenta em uma prática dos reformados e cristãos, em geral, de se recusarem a serem incorporados a governos ímpios e de resistirem a qualquer tipo de tirania (eclesiástica ou civil), que viole os direitos dos homens ou os de Deus. Os autores desse artigo, após profunda meditação sobre essa e outras questões, foram convencidos de que essa tradição está correta e que deve ser seguida pelos cristãos de nossa nação também, e, por isso, tentamos aqui defendê-la, principalmente no que diz respeito ao voto.

Mencionamos isso não por desejarmos seguir meros homens enquanto homens, ou porque estejamos fazendo deles os senhores da nossa fé e consciência (cf. CMW 105), tampouco chamando de mestre e Pai aqueles que não são Cristo (cf. Mt. 23:8-10), mas porque entendemos que é dever de todos os cristãos contenderem pela fé que foi entregue de uma vez por todas aos santos (cf. Jd. 3) e de manter a unidade de pensamento do povo de Deus ao longo da história para evitar o cisma e a heresia (cf. 1 Cor 1:10; Fp. 2:1-2). E qual é a melhor maneira de fazer isso se não atentar para o testemunho histórico do povo de Deus e, assim, seguir nas pisadas do rebanho para não sermos encontrados nas tendas dos companheiros do único Pastor (cf. Ct 1:7-8)? Não foi o próprio Senhor que prometeu o seu Santo Espírito a fim de guiar os seus servos em toda a verdade (cf. Jo. 16:13)? Não estamos, portanto, avançando nenhuma opinião extravagante ou interpretação particular, ou divulgando uma ideia por apreço pela novidade, ou com o intuito de causar contendas desnecessárias no povo de Deus. Mas, é em busca da unidade da fé e da paz entre os eleitos, que propomos essa doutrina.

Aqui, um adendo faz-se necessário. Não estamos contendendo que o voto seja imoral per se. Existem eleições na igreja a fim de se escolherem oficiais (cf. At. 6:5), e muitas decisões de sínodos e concílios eclesiásticos são feitos com base no voto, e nós temos direito divino para esses atos (assim como para todas as instituições do governo presbiteriano); acionistas de uma empresa votam para decidir como os negócios serão conduzidos, e associações de moradores elegem representantes; em tudo isso, não há nada de imoral. Contudo, as eleições políticas do nosso país (e, nós poderíamos acrescentar, da maioria das nações, senão todas) envolvem circunstâncias tais que impedem qualquer cristão consciencioso e bem informado – os quais ainda são minoria em nosso país – de tomar parte em tal ato.

Portanto, o que queremos aqui oferecer ao leitor cristão é um artigo composto de quatro partes, a fim de trazer para o contexto brasileiro o argumento histórico daqueles cristãos fieis, repetindo-o de maneira clara e adaptando-o para as nossas peculiaridades enquanto nação. Não pedimos de nenhum de nossos leitores uma fé cega, e não arrogamos para nós nenhuma infalibilidade anticristã, mas oferecemos argumentos lógicos (derivados da luz da natureza), bíblicos, teológicos e históricos para que o nosso leitor possa ser convencido por si mesmo e chegar à convicção que nós já esposamos.

Cada parte do artigo foi planejada com o objetivo de ser suficiente para convencer irrefutavelmente quem lê, de modo que uma decisão moral possa ser tomada sem que o resto do argumento seja conhecido. Contudo, para maior conforto e confiança do leitor, mostramos humildemente o argumento completo, a fim de evitar qualquer dúvida ou hesitação; principalmente, porque sabemos que estamos cercados de mentes instáveis, que podem subestimar a contundência de uma única parte do argumento, e de naturezas carnais, que, apegadas à conveniência e aceitabilidade social, preferem continuar no erro, distorcendo o raciocínio piedoso e inventando pretextos espúrios, a – submetendo-se à verdade – sofrer o ostracismo do mundo junto com o povo de Deus. Caridosamente, nós julgamos nosso leitor fora desses dois últimos grupos, mas – se a própria consciência o acusa disso – esperamos que esse texto seja um remédio à sua alma capaz de despertar a consciência e a piedade cristãs daqueles que ainda dormem.

Nossa oração é que esse artigo seja usado pelo Espírito divino como instrumento para convencer os cristãos e os edificar em santidade, e que possamos cumprir a função da igreja visível, como meio instrumental para a operação da fé no coração dos eleitos e evitar que esses, enganados, violem a lei moral, a fim de que Deus seja em tudo glorificado.

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2   Votar em dia de sábado é um ato imoral

Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.” (Atos 5:29)

De todas as autoridades que devem ser obedecidas pelos homens, apenas uma é absoluta e inquestionável: a suprema autoridade divina. Sendo o Altíssimo o planejador eterno, o criador e sustentador de toda a realidade ontológica fora de si, pode Ele – por um direito natural e inquestionável de propriedade (cf. Sl. 24:1) – requerer toda obediência e submissão de suas criaturas racionais (i.e. anjos e homens) de acordo com a Sua boa vontade. Afinal, todas elas foram criadas por Ele para cumprir um papel específico na dispensação da Providência divina com o fim de dar glória à deidade (cf. Rm. 11:36). E quem sabe melhor como as criaturas devem manifestar a glória declarativa de quem as criou, senão o próprio Criador?

O Deus trino, porém, não requer de suas criaturas nada que contrarie a Sua própria natureza santa e pura (cf. Is. 6:3; Ap. 15:4), o que implicaria que Ele é o autor do pecado; tal pensamento é blasfemo. Assim, o Divino impõe, especialmente aos homens, a sua lei, informando-os de quais são as regras necessárias para que vivam de acordo com a sua natureza (feita à imagem e semelhança da divina em termos espirituais), para que possam cumprir, assim, o propósito para o qual foram criados. Além da moralidade natural, agradou também a Deus impor à humanidade preceitos positivos que emanam de Sua vontade como legislador soberano; esses princípios, porém, em nada contrariam os mandamentos naturais, pois Deus não é um deus de confusão, nem pode mentir (cf. 1 Cor. 14:33; Nm. 23:19).

A relação metafísica do homem com a divindade, portanto, torna-o cabal e necessariamente submisso à Sua lei, já que Ele é quem cria o universo com Seus propósitos gloriosos. De acordo com a razão, assim, todos os homens devem crer em tudo o que de Deus é possível conhecer por sua revelação na natureza e na Escritura, sobre as quais o selo da autoridade divina está claramente estampado; todos os seus mandamentos devem ser obedecidos sem questionamento por mais que contrariem nossa percepção natural (cf. Gn. 22:1-3), os quais não devem ser por nós julgados, mas utilizados para julgar todas as coisas (cf. Jo. 7:24); e isso pois todos estamos sujeitos à suprema autoridade divina e não podemos enquanto criaturas questionar suas ordens, atos e desejos (cf. Rm. 9:20, 21); caso contrário, estamos questionando a razão universal que governa o mundo, que fez as nossas mentes e que sustenta todas as coisas; tal pensamento não é impropriamente chamado de loucura. Igualmente, todos os homens devem responder a Deus enquanto justo juiz por suas obras (cf. Ec. 12:14), mas o próprio Deus não é responsável por e a ninguém, porque não há autoridade superior à qual deva responder, pois Ele é a autoridade última de todo o universo.

Esse mesmo Deus, porém, delegou aos homens estruturas hierárquicas naturais e evangélicas na família, na igreja e na sociedade civil, para que os homens sejam governados, mantendo-se a ordem, a pureza, a justiça e o cumprimento da lei divina, o que se fez especialmente necessário após a queda de Adão. Contudo, todas essas autoridades humanas – que são relativas – derivam-se da única autoridade absoluta, porque agradou a Deus comunicar aos homens em parte o Seu poder e domínio sobre a criação (cf. Gn. 1:26, 28). Toda autoridade humana é, portanto, subordinada à divina, de modo que não se pode – sem fazer violência à razão – assumir que um Deus bom, justo e santo tenha ordenado, em seu preceito, autoridades para subverter a Sua própria, pregando rebeldia à lei divina como pretexto de obedecer à mesma, o que é um absurdo patente; pois, ainda, como diz o apóstolo, é impossível violar um dos mandamentos de lei sem quebrá-los todos (cf. Tg. 2:10, 11). Não bastasse isso, afirmar que Deus nos exige obediência aos que nos ordenam o pecado também implica sombra de mudança na natureza divina, pois um deus que ordena a violação da lei anteriormente dada por ele mesmo certamente não é o eterno Jeová (cf. Ml. 3:6). A autoridade usurpada, porém, ordena que se peque, tornando-se ela mesma não só uma autoridade nula, mas, uma nulidade em si, já que o pecado é a negação da deidade (o bem supremo e o ser puro) e por si só não tem substância. Assim, não há o que reverenciar nessas autoridades, nem nada de positivo a que se submeter.

Portanto, como o Senhor nos ordena obedecer às autoridades legítimas e, sabendo que todo mandamento inclui a proibição contrária (cf. CMW 99, no 4), concluímos que Deus nos ordena desobedecer a todos os tiranos e usurpadores. A Escritura também promete bênção aos que obedecem a elas e ameaça a danação aos que as rejeitam (cf. Rm. 13:2, 3); e, como toda benção implica a maldição oposta e toda maldição implica a benção oposta, Deus promete a seus filhos bênção para os que resistem à tirania e certamente pune nesta vida e na vindoura os que se submetem passivamente aos governantes ímpios. Logo, tem-se não só a autoridade divina para a desobediência civil de leis e magistrados ímpios, mas a certeza de que a presença de Deus não se afastará dos que preferem sofrer a pecar.

Entendendo isso, o grande Agostinho conclui que “uma lei injusta não é uma lei” 3, o que quer dizer que as leis positivas estabelecidas por autoridade meramente humana não podem violar a lei moral (natural ou positiva) dada por Deus; caso contrário, elas perdem sua própria autoridade e validez, deixando de obrigar nossa consciência e levando-nos justamente a desobedecer-lhes. É esse o caso do nosso texto. Os apóstolos, tendo sido proibidos já pela segunda vez pelos líderes judeus (com a coerção física das autoridades romanas) de pregar o evangelho, respondem, à semelhança da primeira ocorrência, que não era justo que ouvissem a homens antes de Deus, e que era-lhes impossível não falar do que viram e ouviram (cf. At. 4:19-20), já que foram comissionados pelo próprio Senhor Jesus Cristo para pregarem a todas as nações (cf. Mt. 28:18-20).

Ora, se o ato de votação que nos exige o magistrado requer por si só que pratiquemos algo que viola a santa lei divina, somos pelo próprio Deus proibidos de votar nessas circunstâncias. Sabemos que a lei diz:

As eleições para Presidente e Vice-Presidente da República, Governador e Vice-Governador de Estado e do Distrito Federal, Prefeito e Vice-Prefeito, Senador, Deputado Federal, Deputado Estadual, Deputado Distrital e Vereador dar-se-ão, em todo o País, no primeiro domingo de outubro do ano respectivo.4

Portanto, se, como se pretende fazer neste artigo, for provado que o votar no dia do sábado cristão (como ordena a lei) é uma violação da lei divina, temos um argumento moral irrefutável contra o voto por todo cristão consciente de sua própria fé. Logo, é dever desobedecer ao magistrado e à lei, ouvindo antes a Deus, cuja autoridade suprema e absoluta nos ordenou descansar no dia da ressurreição de nosso Senhor.

2.1   O sábado é um mandamento moral

A luz da natureza nos ensina que há um único Deus, o qual deve ser adorado conforme ele mesmo nos ordena, exigindo de nós toda obediência que lhe pareça apropriada, assim como excluindo toda invenção humana que não possua o selo da Sua aprovação. Para isso, faz-se necessário separar uma certa quantidade de tempo, à parte das ocupações comuns e civis que a sobrevivência e a vida em sociedade nos exigem, a fim de que o mesmo seja dedicado à adoração do ser divino.

Caso contrário, estar-se-ia caindo no pecado do ateísmo prático, contra o qual já admoestou o apóstolo ao falar sobre alguns que, embora confessando conhecer a Deus com a boca, negam-no por suas obras (cf. Tt. 1:16); e não seríamos muito melhores do que aqueles que passam por um dia inteiro sem fazer uma oração (nem antes e depois das refeições, tampouco particularmente), sem ler as Escrituras ou cultuar a Deus com suas famílias.

Que essa necessidade de separar um tempo específico para a adoração religiosa é um dever da moralidade natural, os próprios nomes dos dias da semana e dos meses dos anos testificam. Os pagãos, por mais que pervertessem a revelação natural sobre a unidade e a natureza da deidade, ainda compreendiam a necessidade de estabelecer tempos – mantendo-se uma periodicidade – para cultuar aos seus deuses falsos, e, portanto, deram nomes para os dias e épocas do ano de acordo com o ídolo que estava sendo venerado especialmente nos templos naqueles tempos (não é de se espantar que o papismo – que não passa de paganismo batizado – tenha feito o mesmo com seus santos). Outra clara evidência para a moralidade do argumento reside no fato de ter sido colocado pelo Espírito Santo no Decálogo, o resumo da lei divina, no qual nada tipicamente cerimonial entrou, contendo apenas mandamentos morais; e em ter sido instituído ainda no paraíso – quando o pecado não havia entrado no mundo – e não havia necessidade de cerimônias que nos instruíssem no caminho da salvação.

Por mais que a necessidade de se separar um tempo para o culto a Deus seja de conhecimento e equidade natural, a proporção específica de tempo, bem como qual tempo em si deve ser separado são de instituição positiva. Todo leitor atento da lei de Deus sabe que, na dispensação legal do pacto da graça, o dia separado por Deus para o santo descanso e o ajuntamento solene de seu povo para adorá-lo era o sétimo dia da semana. O direito divino de tal dia vem do ato criador de Deus na primeira semana do universo: em seis dias todas as coisas vieram a existir pela Sua palavra; ao sétimo dia, Deus cessa suas obras e as aprecia. Tal dia era próprio ao estado de inocência original da raça humana, pois demonstrava a soberania de Deus na criação, seu direito de propriedade sobre o tempo e os recursos dos homens, bem como testemunhava da bondade de tudo o que havia sido feito. O dia, porém, não se tornou impróprio quando da introdução do pecado original no mundo e da primeira revelação do evangelho sob as sombras da lei. Ele adquire significado mais amplo ao mostrar que Deus liberta seu povo do Egito espiritual e da escravidão e tirania de Faraó (a saber, o diabo), dando descanso ao povo, que foi graciosamente redimido. Trabalhar seis dias, para – ao fim da semana – descansar, também instruía os santos israelitas a esperarem continuamente pela vinda do messias prometido, ensinando-os que – mesmo depois de uma árdua semana buscando cumprir todas as palavras da lei de Deus – só a promessa do evangelho os poderia de fato dar o descanso eterno.

2.2   O sábado continua no Novo Testamento e foi alterado para o primeiro dia
da semana

Com a vinda do Messias, o seu ministério terreno e o estabelecimento da igreja do Novo Testa- mento, há uma mudança no dia, o que não aponta para uma mudança na natureza divina (o que é impossível), mas uma mudança na dispensação da providência e da economia da redenção para o seu povo.

O cordeiro morto desde toda a eternidade é, finalmente, na plenitude dos tempos, imolado na história, cumprindo todas as estipulações do pacto da redenção (cuja recompensa é Seu reino mediatorial) e satisfazendo todas as profecias, tipos e cerimônias da lei. A sua ressurreição marca o início de uma nova dispensação e tipifica a renovação da criação caída efetuada por meio do pacto da graça – um novo ato divino garantindo o direito de se guardar agora o primeiro dia – na qual a redenção nos dá a certeza de que podemos trabalhar por Deus, sabendo que todas as promessas são sim e amém em Cristo, o qual venceu a morte e o pecado por seu povo dando-lhes completa redenção.

Assumir que um mandamento natural perderia sua aplicação positiva (sem a qual ele não pode ser cumprido na prática) é uma contradição moral, que lança dúvida sobre a pureza do caráter divino. Certamente, nos quarenta dias que Cristo permaneceu com os apóstolos após sua ressurreição, os instruiu acerca da mudança de dia, o que é confirmado pela Sua frequente aparição aos seus discípulos neste dia (cf. Jo. 20:19,24,26), o derramamento do seu Espírito no dia primeiro (cf. At. 2:1-5), as coletas feitas para os pobres quando o povo de Deus se reunia (cf. 1 Cor. 16:1,2), os sermões dos apóstolos e os encontros dos discípulos para orar e celebrar os sacramentos (cf. At. 20:6,7), a superioridade da nova aliança (na qual ainda nos resta um descanso, cf. Hb. 4:1-10), o fato de o apóstolo amado receber a sua revelação das últimas coisas neste dia e de designá-lo de “o dia do Senhor” (cf. Ap. 1:10), além dos vários tipos e profecias da velha aliança que apontavam para a santificação do primeiro ou oitavo dia (cf. Ez. 43:27, Num. 28:26 comp. Lev. 23:16).

Por essas razões, a santificação do primeiro dia da semana tem sido uma prática universal dos cristãos desde os tempos apostólicos, sendo rejeitada apenas por grupos heréticos e sectários, como alguns dos antigos (e também muitos dos modernos) anabatistas (os quais rejeitam completamente o sabatarianismo ou guardam o sétimo dia) e seitas de origem recente.

2.3   As obras de necessidade

A santificação do primeiro dia da semana não impede, porém, o bom cristão de realizar outras atividades não diretamente relacionadas ao culto público, particular e familiar, à instrução religiosa pela catequese ou à meditação na obra e no ser de Deus. Sendo de instituição positiva, o manda- mento não tem precedência em nossa obediência sobre os deveres da moralidade natural: o amor, a misericórdia, a necessidade e a justiça.

Caso o local de reunião de um grupo de cristãos fosse achado em chamas durante o culto solene do domingo, seria razoável ao pastor esperar que a benção apostólica fosse dada para que, então, as chamas fossem controladas e os crentes tentassem salvar seus bens e suas vidas? Não é justo que fujamos de perigos e perseguições que nos sobrevém mesmo em um dia santo (cf. Mt. 24:20)? Não foi o próprio Deus, que criou o sábado e nele descansou, o mesmo que trabalha até hoje, sustentando continuamente todo o universo pela palavra do Seu poder (cf. Jo. 5:17, Hb. 1:3)?

Por isso, o messias em seu ministério terreno, por várias vezes, curou, expulsou demônios e justificou seus discípulos coletando espigas no sábado (cf. Mc. 2:23-27, Jo. 5:1-15), pois nenhuma observância religiosa pode nos impedir de exercer a caridade para com o nosso próximo ou o nosso amor para com Deus. Acaso não é o mesmo Deus que deu ambas as leis (o sábado e o amor)? Como podem elas então ordenarem coisas contrárias entre si? Antes, o Senhor do sábado nos instrui que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado (cf. Mc. 2:27,28).

O tempo que legitimamente não é utilizado no culto a Deus no dia de Cristo foi classificado pelos teólogos como pertencentes a duas categorias: as obras de necessidade e as de misericórdia. Como nos diz o sr. Fisher,“as obras de necessidade são aquelas que não poderiam ser previstas, e para as quais não se poderia providenciar no dia anterior nem adiá-las até depois do sábado” 6. Como exemplos, o mesmo eminente comentarista cita fugir de um inimigo, apagar um incêndio causado acidental ou propositadamente, manejar um navio pelo leme (desde que o navio não lance âncora ou parta de um porto) e outras coisas do gênero.

Fica claro, portanto, que qualquer evento previamente marcado e possivelmente realizável em outro dia da semana não se enquadra na classe de obras de necessidade. Ora, as eleições ocorrem de modo planejado e podem ser realizadas em outro dia da semana (como ocorre em vários outros países do mundo), não havendo nenhuma razão especial pela qual eleições devam ser realizadas no dia do Senhor. Logo, conclui-se que votar no dia do Senhor não é uma obra de necessidade.

2.4   As obras de misericórdia

As obras de misericórdia, por sua vez, são aquelas que, não podendo ser adiadas nem adiantadas apropriadamente, são necessárias para manter e promover de maneira imediata, com o seu uso moderado, o bem-estar físico e a saúde de homens e bestas. Coletas para os pobres, alimento para os animais, lavagem corporal, refeições, cuidado e administração de remédios aos enfermos são todos atos legítimos de serem feitos no dia do Senhor.

Novamente, até uma criança reconhece que pressionar um botão para escolher um candidato ou inserir uma cédula em uma urna não é uma obra de misericórdia 7.

Ainda, obras de necessidade e de misericórdia devem sempre ser feitas de maneira sincera, buscando-se entender se – de fato – a sua imprescindibilidade é real e não fingida. Elas devem ser realizadas buscando não se demorar desnecessariamente em sua realização, mas crendo que elas são úteis para que nós e outros cumpramos o quarto mandamento, meditando-se – durante o momento em que as fazemos – nas coisas celestes e espirituais, de modo a santificá-las como o dia exige.

Poderia algum bom cristão – mesmo que votar não fosse uma violação do santo dia de Cristo – fazê-lo da maneira correta? Entrar discretamente na cabine de votação, fugindo de todas as tentações de dar atenção a propagandas políticas ou discutir sobre isso com outros votantes, votar mantendo os seus pensamentos no sermão ouvido pela manhã e – ao mesmo tempo – evitar que alguma ação ou palavra sua faça outros pecarem por desnecessários pensamentos sobre as ocupações ordinárias de cada um? Será isso possível em um ambiente de votação em um dia em que todos estão constantemente atentos a assuntos políticos e civis? Não nos seria mais prudente fugir das tentações (em conformidade com a sexta petição da oração dominical), abandonando completamente esse ato e esses locais, assim como ter misericórdia de irmãos mais fracos que facilmente se distrairiam no dia do Senhor em tais circunstâncias? Não seria isso uma pedra de tropeço aos pequeninos de Cristo (cf. Mc. 9:42)? Portanto, senão pelo quarto mandamento, somos proibidos pela prudência e pela caridade a votar no dia do Senhor.

2.5   Conclusão

Nosso povo tem a lei natural escrita em seus corações e, sem fazer injustiça à história, temos também a luz da Escritura no que diz respeito ao quarto mandamento (do que testificam as vá- rias cidades brasileiras onde praticamente todo o comércio se fecha no dia do Senhor). Não há, portanto, justificativa de ignorância para nós neste assunto.

Por outro lado, sabemos como o diabo em toda a história do povo de Deus, sempre procurou destruir a correta observância do domingo, buscando com isso dar fim à toda religião prática e, com isso, apagar das mentes dos homens a reverência devida ao Senhor e às coisas santas. Particularmente, ele emprega governantes ímpios para tal tarefa. Não foram os sanguinários da revolução francesa os responsáveis por um calendário com 10 dias na semana (no qual se perde toda a memória do domingo)? Não foi o ímpio governo norte-americano que, por boa parte do século XIX, manteve os correios funcionando no dia do Senhor? Não foi Assuero – o déspota sem vontade pró- pria que tipifica o diabo – quem fez um banquete na cidadela de Susã, na qual havia muitos judeus piedosos, durando 7 dias (de modo que não se podia participar dela sem se violar o sábado, cf. Et. 1:5)? E vamos nós participar da festa da democracia” contra Cristo? Antes, lembremo-nos do mandamento, como nos instrui a própria letra da lei, e oremos para que Deus nos dê magistrados tementes a ele, que mantenham o sábado santo, punindo seus infratores, como o piedoso Neemias (cf. Ne. 13:15-22).

Doravante, sabendo que a lei humana nos ordena algo contrário à lei divina, cabe-nos tomar a decisão consciente de a quem obedecer: se vamos estabelecer um papado civil, creditando aos governantes, às instituições públicas e à constituição infalibilidade e submissão inquestionável, obrigando a nossa consciência por princípio, ou se vamos preferir sofrer a pecar, honrando a Cristo e tomando sobre nós o seu leve e suave fardo.

Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem tampouco está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar, para que no-lo traga, e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires. Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, e a morte e o mal; Porquanto te ordeno hoje que ames ao SENHOR teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o SENHOR teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir. (Deuteronômio 30:11-16)

Notas
Esses cristãos eram comumente chamados de Covenanters [i.e. aliancistas ou pactuantes] (covenant do inglês significa aliança/pacto) por terem se mantido fieis aos pactos nacionais e internacionais nos quais as igrejas particulares dessas nações entraram durante a primeira e a segunda reformas, a saber: o Pacto Nacional da Escócia (1580) e a Liga Solene e Aliança dos Três Reinos (1638).
2  O termo católico significa simplesmente universal, não tendo conexão direta com a Igreja Romana, que é um corpo eclesiástico cismático.
3   Sobre a liberdade da vontade, Livro 1, § 5
4   Disposições Gerais sobre o voto. Art. 1o, Lei N 9.504, de 30 de Setembro de 1997. Grifo nosso.
5   Repetidas vezes, as Escrituras da verdade condenam homens que, simulando piedade, mas, permanecendo rebeldes contra Deus e hipócritas em seu íntimo, violam a lei natural, pecando contra Deus e os homens, com a desculpa de que servem a Deus desse modo (cf. Mt. 15:1-9; 1 Sm. 15:19-23).
6   The Assembly’s Shorter Catechism Explained by Way of Question and Answer, p. 298, Q. 36
7  Alguém poderia objetar dizendo: a lei a que tomamos exceção, a saber o quarto mandamento, é positiva; a lei que buscamos obedecer, todavia, é natural a obediência aos magistrados, derivada do quinto mandamento. Por- tanto, não estaríamos fazendo uma obra de necessidade ou misericórdia, ainda mais quando o não votar permitiria 
a ascensão ao poder de um governante mais ímpio, profano e imoral que os outros? Havendo um candidato cristão, certamente, seria nosso dever votar“.

Primeiro, o argumento confunde a obediência ao magistrado no sentido amplo, com a obediência às leis impostas por este. O quinto mandamento ordena a obediência a todo magistrado legítimo, o qual é caracterizado por – constituído em conformidade com a lei divina – decretar leis que reforçam a lei moral natural e a lei moral positiva já impostas por Deus, podendo criar leis positivas (de autoria própria), que – quanto à sua forma – são moralmente indi- ferentes, sem – contudo – violar materialmente nenhuma lei divina natural ou positiva. Não sendo cumprido o último requisito, o decreto é ilegítimo e não precisa ser obedecido; pelo contrário, deve ser resistido por todos os cristãos. A lei de eleições no domingo é claramente positiva e de instituição humana. Contudo, como vimos, ela viola o quarto mandamento, que – quanto à sua forma – é positivo e imposto por Deus. Desse modo, o conflito entre duas leis positivas (o sábado e as eleições) é resolvido dando-se primazia à lei divina.

Ainda, as obras de necessidade e misericórdia são determinadas pela lei natural (elas não mudam com tempos, lugares e culturas, mas se discernem pela própria luz da natureza, encontrando sua justificativa moral na natureza do ser de Deus e da do homem criado à sua imagem); votar, por sua vez, é um decreto positivo factual e moralmente não necessário; logo, votar não cria direito para obras de necessidade nem misericórdia. Portanto, votar não pode ser obra de necessidade tampouco de misericórdia.

Depois, parece haver no raciocínio uma confusão entre causas e efeitos. Na providência ordinária de Deus observa-se que, o que é atestado pela história profana e por aquela contida no Volume da inspiração, governantes ímpios e tirânicos são dados como castigo dos pecados de um povo (ou seja, ordinariamente, não são os governantes ímpios que iniciam a rebeldia de um povo contra Deus). Que tolice seria, então, violar o sábado cristão com o intuito de apaziguar ira de Deus sobre o nosso povo! Faríamos o mal para que disso viesse o bem (cf. Rm. 3:8)? Não está Ele nos provando se permanecemos longe dos seus estatutos ou se nos arrependemos e obedecemos à sua lei?

Se nosso povo estivesse sendo sem motivo aparente afligido por magistrados perversos, temos também amplo testemunho da Escritura e dos santos do passado de que Deus abençoa os patriotas cristãos que se rebelam contra tiranos com o uso de armas, em tais casos (cf. Gn. 18:1-16; 2 Reis 18:7).

Por fim, a ideia de que é possível votar em um candidato menos pior, ou até em um cristão, como uma obra de misericórdia deixa qualquer estudante sério da moralidade cristã pasmo. Sabe-se que os que governam sobre os homens devem ser justos, governando no temor do Senhor (cf. 2 Sm. 23:3); entre os nossos candidatos que sequer professam a religião cristã, será que encontramos ao menos um pagão ou infiel iluminado em suas convicções morais, capaz de manter alguma virtude cívica? Sendo assim, pode algum bom discípulo de Cristo escolher um mal moral menor, quando o próprio mestre nos ensinou a orar pedindo que fôssemos livrados de todo mal, mesmo os menores (cf. Mt. 6:13)? Podemos escolher um mal menor quando Deus se ira terrivelmente contra todo pecado mesmo os pequenos  a ponto de castigá-los com o fogo eterno? Não foi o mero comer de um fruto que por si era bom, mas o comê- lo tornou-se mal pela ordem divina o que trouxe toda miséria e morte sobre nossa raça ejetando-nos do paraíso, e iríamos nós buscar uma violação menor da lei de Deus como um ato justificável?

Quanto à ideia de que um cristão possa se candidatar e que votar nele seria uma obra de misericórdia, respondemos que um cristão fiel e coerente o único qualificado para ser um magistrado (em uma terra iluminada pelo evangelho) não se candidataria em um eleição que ocorresse em dia de domingo pelos motivos acima expostos. Mas, para que não nos acusem de circularidade no argumento, acrescentamos que incorporar-se a um governo ímpio, infiltrando ali cristãos que terão de manter as leis injustas jurando fidelidade a elas com o objetivo de subvertê-las, não é um dever ou necessidade requeridos pela natureza (ao contrário, tais atos são por ela reprovados; tal argumento se volta também contra a escolha de um infiel com visões mais puras de moralidade); portanto, votar não é obra de misericórdia. O que consola o povo de Deus sob governos ímpios não é que um cristão disfarçado conspire contra as instituições, mas que os corações dos reis estão nas mãos do Todo Poderoso de modo que são inclinados para onde aprouver à Sua Providência (cf. Pv. 21:1); cabe a nós cumprir a lei que nos foi revelada, deixando os resultados de- terminados no decreto de Deus serem executados por meio do Seu governo (cf. Dt. 29:29). Logo, não justificativa para votar em dia de domingo.

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